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OMS declara fim de emergência global por zika; Brasil mantém alerta

Organização Mundial de Saúde diz que governos terão de ampliar testes e não apenas verificar circunferência da cabeça

Jamil Chade e Lígia Formenti, O Estado de S. Paulo

18 Novembro 2016 | 17h33

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o fim da emergência global por vírus zika, pegando de surpresa pesquisadores. A entidade alerta que, a partir de agora, a doença será crônica no Brasil e governos terão de tomar medidas de longo prazo. O País anunciou que a emergência nacional será mantida.

A OMS garante que um departamento dentro da instituição passará a buscar soluções para enfrentar o vírus e “não está rebaixando” a doença. Mas especialistas na própria entidade temem que o fim da emergência significará sérios desafios para que cientistas possam obter recursos para manter as pesquisas. 

A organização considerou que, como está provada a relação entre o vírus e a microcefalia, ela precisava agora de um “mecanismo robusto de longo prazo para administrar a resposta global”. Para a entidade, o zika “continua sendo um desafio significativo e duradouro de saúde pública e exige ação intensa. Mas não é mais uma emergência”. Por isso, a entidade decidiu “escalar” a doença a um “programa permanente”.

A decisão foi alvo de duras críticas por parte dos cientistas. “Será que veremos uma nova onda de casos no Brasil e na Colômbia?” indagou Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Contagiosas. Sua entidade é uma das que tentam arrecadar recursos para bancar uma vacina. Para ele, o fim da emergência é “prematuro”, principalmente porque o verão no Brasil está prestes a começar. “Por que não esperaram alguns meses?”

Tentando justificar sua decisão, David Heymann, presidente do Comitê de Emergência, considera que agora o vírus zika é um problema com “conotação específica”. “Ela é declarada quando se precisa de uma ação urgente”, insistiu, destacando a proximidade, na época, da Rio-2016. “A emergência não era para parar o vírus, mas para entendê-lo”, insistiu.

Endêmico. A situação de emergência nacional no Brasil foi declarada há um ano, diante do aumento súbito de casos de microcefalia no Nordeste. E será mantida. “O Brasil está acumulando conhecimento sobre o assunto, precisamos manter a vigilância”, afirmou o ministro da Saúde, Ricardo Barros. 

 

 

O Estado apurou que a decisão do governo é manter essa condição pelo menos até o fim do verão, quando se encerra o ciclo de maior risco de transmissão pelo Aedes aegypti. Até agora, não se confirmou um segundo ciclo de nascimentos com microcefalia. Entre outubro e novembro, foram notificados em média 82 casos suspeitos por semana, número menor do que o registrado no mesmo período de 2015. “Há dúvidas que precisam ser esclarecidas”, disse Wanderson Oliveira, coordenador-geral de Vigilância e Resposta às Emergências em Saúde Pública.

Questionado sobre a decisão do País, Heymann, da OMS, indicou que a considerava “apropriada”. “O Brasil ainda precisa de mais recursos e mais pesquisas. Trata-se agora de um caso endêmico lá, e surtos novos podem continuar”, disse. 

Sem respostas. A emergência internacional foi primeiro anunciada em fevereiro deste ano, quatro meses depois de o governo brasileiro notificar a OMS sobre a crise. Até agora, porém, muitas das questões relacionadas ao novo vírus não foram respondidas. 

Os cientistas, por exemplo, continuam sem uma explicação sobre o motivo pelo qual o Brasil registrou um salto no número de microcefalia, enquanto em outros locais essa tendência não foi vista. Tampouco há um cronograma claro para quando uma vacina poderia chegar ao mercado. Fontes das Nações Unidas admitem que o produto não estará pronto antes de 2018 ou 2019. 

Há poucos meses, a OMS passou até a adotar uma nova definição e considera a nova doença como Síndrome Congênita do Zika. Isso porque evidências científicas apontaram que mesmo crianças com um tamanho de crânio dentro dos parâmetros “normais” podem ser afetadas pelo vírus.

Cientistas temem que a medida reduza recursos 

O temor de muitos é de que o fim da emergência estanque recursos. A OMS já havia solicitado a doadores cerca de US$ 115 milhões para pesquisas em um ano. Mas recebeu só uma fração disso. Há cerca de um mês, a entidade detalhou um programa de US$ 25 milhões de ações para 2016. 

David Heymann, presidente do Comitê de Emergência, admite que o fechamento de torneiras é “preocupante”. Mas espera que isso seja compensado pela transformação da emergência em programa da OMS. “O zika vai ser sazonal. O público terá de entender, como foi com a rubéola, tomando medidas. É algo difícil e vamos esperar a vacina”, disse.

O virologista Maurício Lacerda Nogueira, da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP), afirma que o fim do status de emergência resultará em perda de recursos. “Quando há uma emergência mundial declarada, os gestores têm argumento para conseguir recursos extras.” 

Fontes na OMS avaliam que quem quiser trabalhar com o zika agora terá de disputar verba com todas as demais doenças crônicas. “Entra na mesma categoria agora da dengue”, admitiu Peter Salama, diretor executivo dos programas de emergência. 

Ele, porém, insiste que casos de microcefalia já foram identificados em 29 países e o vírus vai continuar a se espalhar geograficamente. “Todos os países com mosquito vetor da doença estão em risco”, disse. Para ele, o zika “está aqui para ficar”. “E exigirá uma adaptação de sistemas de saúde, de pesquisa e até de direitos reprodutivos”, indicou. “O mundo terá de agir. Esperamos que os doadores entendam.” /COLABOROU FÁBIO DE CASTRO

 

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