TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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OMS estima mais 1 mil novos casos de microcefalia no Brasil

Total deve superar a marca de 3 mil ocorrências; entidade afirma que questões sobre zika podem levar anos para serem respondidas

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo

22 Novembro 2016 | 10h19
Atualizado 22 Novembro 2016 | 13h32

GENEBRA - A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que o zika está "aqui para ficar" e que pelo menos mais de 1 mil novos casos de microcefalia ligados ao vírus deverão ser identificados no Brasil. Quatro dias depois de anunciar o fim da emergência global, a entidade reuniu nesta terça-feira, 22, governos de todo o mundo para explicar a medida e garantir que a atenção sobre a nova doença será "reforçada". Mas alertou que a real dimensão do impacto do zika vírus pode ser ainda maior, com o desenvolvimento de novos impactos em bebês até agora não identificados. 

Todos na agência da Organização das Nações Unidas (ONU) admitem: algumas das respostas sobre o vírus poderão levar "anos" para serem respondidas. 

Anthony Costello, diretor de Saúde Infantil da OMS, explicou que hoje existem 2,1 mil casos confirmados de microcefalia. Mas outros 3 mil estão em análise.

"Desse total, poderemos esperar um número extra de 1 mil casos confirmados", disse. "A emergência mundial pode ter acabado. Mas temos um enorme problema de saúde. Trata-se de um vírus que causa um impacto de longo prazo e o problema não vai desaparecer."

No total, a OMS aponta que o número total pode superar 3,1 mil casos, antes mesmo de o verão começar no País. A entidade também destaca que 80% dos casos ainda não têm sintomas nas mulheres, o que pode levar o número total de casos a ser ainda maior.

De acordo com Costello, os novos casos por mês somam 220 a 450 desde meados do ano no Brasil. 

Na sexta-feira, 18, a OMS decidiu decretar o fim da emergência global, transformando o combate ao zika em um programa permanente dentro da entidade. Mas cientistas criticaram a decisão, alertando que o anúncio pode gerar uma queda no financiamento e em um momento em que ainda não existem respostas para muitas questões sobre o vírus.

Costello confirmou que novos estudos coletados pela OMS alertam que quanto mais cedo a contaminação de uma gestante pelo zika, maiores as chances de que seus bebês desenvolvam problemas como surdez, má-formação e mesmo microcefalia.

"Se a contaminação for no primeiro trimestre, os riscos neurológicos são maiores", disse Pete Salama, diretor-executivo da OMS. "Muitos nascem com cabeças normais, mas estamos descobrindo que os problemas podem ser maiores."

Novos impactos. Salama ainda insistiu que o mundo científico ainda não sabe a dimensão da doença, já que a microcefalia pode não ser o único impacto e que problemas podem inclusive surgir em etapas mais adiantadas na vida de crianças. "Precisamos ver como será o impacto e o que significa isso para crianças em seu desenvolvimento."

Nesta terça-feira, a reportagem do Estado revelou que um estudo que acompanhou 57 gestantes paulistas infectadas pelo zika reforçou a hipótese de que o vírus pode causar diversos danos aos bebês além da microcefalia. E as anomalias podem acontecer independentemente do trimestre de gravidez em que a mãe foi infectada.

Coordenada por Mauricio Lacerda Nogueira, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto e integrante da Rede Zika (força-tarefa formada por pesquisadores de São Paulo apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp), a pesquisa monitorou 1.200 grávidas do interior, das quais 57 tiveram a confirmação de contaminação pelo vírus zika, com casos de infecção em todos os trimestres da gestação.

"Não sabemos se esse é um grupo selecionado", disse Costello. "Mas precisamos mais estudos sistemático no Brasil e no mundo para saber qual a dimensão dos problemas."

Pesquisa. Para Salama, a OMS precisará de "vários anos" para responder a algumas perguntas. Mas o problema é que o financiamento pode ser um desafio. A entidade pediu US$ 112 milhões para bancar programas de combate ao zika pelo mundo em 2017. Mas receberam apenas US$ 15 milhões por enquanto. Apenas para a OMS, o buraco financeiro é de US$ 19 milhões. "O mundo precisa responder a essas necessidades."

Enquanto isso, as projeções apontam que os resultados de pesquisas ainda podem levar algum tempo para serem conclusivos. Cerca de 30 produtos fazem parte dos candidatos a vacina contra o vírus. Mas apenas três deles estão em fase de testes.

"Para termos uma vacina viável, ainda precisaremos de um longo prazo", admitiu Salama.

Mas a vacina não é o único ponto de incerteza na OMS. Nathalie Broutet, pesquisadora-chefe da entidade, disse que não existe ainda uma conclusão se existem fatores extras influenciando no desenvolvimento de microcefalia.

"Muitas incógnitas persistem. Por isso, precisamos de uma agenda de pesquisa de longo prazo. O zika está aqui para ficar. Precisamos de novos instrumentos", insistiu Salama.

Segundo ele, no programa que a OMS vai desenvolver, a pesquisa científica estará no centro dos trabalhos nos próximos anos. No rascunho da estratégia estão temas como a caracterização do vírus, diagnósticos, terapias e o fortalecimento de sistemas de saúde.

Ao testar justificar a decisão da OMS de declarar o fim da emergência, ele insistiu que a medida não representa uma redução dos trabalhos ou menor atenção.

"De uma certa forma, estamos reconhecendo que o problema é mais grave que uma emergência", disse. "Estamos passando de uma situação de emergência para uma resposta de longo prazo, o que significa que nossos programas vão aumentar."

Segundo ele, a emergência foi inicialmente declarada porque não se sabia o que estava gerando a microcefalia no Brasil. "Hoje, a associação entre o vírus e a doença está provada", disse.

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