Opostos se atraem?

SÃO PAULO - Será que quando se trata de amor e sexo os opostos se atraem? Do ponto de vista do comportamento, uma série de trabalhos andou desconstruindo essa história. A gente tenderia a procurar uma pessoa que “funcionasse” de um jeito mais parecido com o nosso. Mas uma nova pesquisa divulgada na última semana pode resgatar, pelo menos do ponto de vista imunológico, esse tradicional mito popular. Cientistas da Universidade de Dresden, na Alemanha, analisaram cerca de 250 casais heterossexuais e afirmaram que a intensidade do desejo que uma pessoa sente por um potencial parceiro sexual teria relação direta com o “tamanho” da diferença entre os sistemas imunológicos dos dois. Dessa forma, quanto mais diferentes, maior o desejo. 

Jairo Bauer, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2016 | 05h00

Segundo o estudo, publicado na revista científica Nature e divulgado pelo site BBC Brasil, as diferenças no sistema imunológico HLA (conhecido como complexo principal de histocompatibilidade) seriam as responsáveis pela atração sexual. Simplificadamente, o HLA é composto por um tipo de proteína (glicoproteína) das membranas das nossas células. Sua função é reconhecer moléculas (peptídeos, antígenos) e expô-las para nossos linfócitos (células de defesa), para que elas sejam reconhecidas como “próprias” ou “estranhas”. O HLA funcionaria, assim, como um sistema regulador, que induz tolerância ou resposta imunológica.

Curioso lembrar que o exame que tipifica o sistema HLA é um dos processos mais importantes envolvidos no estudo da compatibilidade entre receptor e doador, quando se pretende fazer um transplante. Nesse caso, quanto mais parecido melhor para tentar evitar e “driblar” uma possível rejeição ao órgão transplantado.

No caso do desejo sexual, segundo os pesquisadores, valeria o oposto. Quanto mais diferente, melhor! Isso se explicaria pela evolução da nossa espécie. Ao longo desse processo, fomos obrigados a nos defender de uma série de agentes invasores, como vírus, bactérias, fungos e protozoários. Quanto mais rico e variado fosse nosso “arsenal” de defesa, maiores as chances de vencermos e sobrevivermos aos nossos inimigos. E como será que se consegue um sistema de defesa mais “diverso”? Provavelmente, um dos mecanismos é ter um pai e uma mãe o mais diferente possível do ponto de vista imunológico. Assim, uma das causas do desejo sexual incontrolável por determinada pessoa seria justamente essa busca “inconsciente” por esse parceiro mais distinto.

Achou essa história uma “viagem” dos pesquisadores? Então é bom a gente lembrar que muitos outros animais enxergam e “farejam” no seu potencial parceiro sexual informações sobre sua saúde e sua chance de gerar uma prole com maior chance de sobrevivência. Com a evolução, obviamente perdemos parte da capacidade de “cheirar” pistas sobre o nosso parceiro ou parceira, futuro progenitor dos filhos. Mas esse processo instintivo, que passa longe da nossa capacidade de entender ou perceber porque sentimos mais ou menos atração por determinada pessoa, provavelmente carrega uma série de segredos, inclusive essa questão da maior diferença do nosso sistema imunológico.

Os pesquisadores fecham a questão que o desejo, a satisfação sexual e a vontade de procriar estariam diretamente ligados a essas diferenças. Para eles, o HLA deve gerar mudanças em nosso odor e em nossas secreções (suor, saliva) que passam “pistas” para esse instinto que reside em cada um de nós. 

Mas é lógico que, como parte do nosso processo de socialização, aprendemos a controlar esses instintos e a fazer escolhas afetivas e amorosas (como a definição de um parceiro ou parceira para a vida) que levam em consideração muitas outras variáveis e não apenas o que mandaria esse nosso “nariz evolutivo”. Não é mesmo? 

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