Organização do cientista receberá R$ 33,2 milhões do governo

Quantia irá para projeto de exoesqueleto capaz de fazer um paraplégico dar o chute inaugural da Copa do Mundo de 2014

Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

19 Dezembro 2012 | 02h02

Miguel Nicolelis é o presidente da Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa (AASDAP), uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), com sede em São Paulo, que administra o IINN-ELS com recursos públicos e privados. O Estado revelou no domingo que a AASDAP vai receber R$ 33,2 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em apoio ao Projeto Andar de Novo, que tem como objetivo desenvolver um exoesqueleto controlado pelo cérebro que permita a um brasileiro paraplégico dar o chute inaugural da Copa do Mundo de 2014.

O repasse é criticado por outros pesquisadores, que levantam preocupações éticas em relação ao projeto e questionam a qualificação científica do IINN-ELS para desenvolver essa tecnologia, conhecida como interface cérebro-máquina (ICM).

Um dos experimentos mais divulgados por Nicolelis sobre ICM foi realizado em janeiro de 2008, quando uma macaca caminhando sobre uma esteira no seu laboratório na Universidade Duke teria comandado os movimentos de um robô humanoide no Japão, com seus comandos cerebrais captados e transmitidos em tempo real via internet.

Os dados técnicos do trabalho, porém, nunca foram publicados em revistas científicas (apenas pela mídia), impossibilitando outros pesquisadores de examinarem os resultados de maneira independente.

O robô usado no Japão foi desenvolvido por uma empresa de robótica americana chamada Sarcos, que, dois meses antes do experimento, foi comprada por uma companhia maior, chamada Raytheon, que desenvolve uma série de tecnologias militares - entre elas, exoesqueletos para soldados de infantaria.

Perguntada pela reportagem se havia relação entre a empresa e as pesquisas de Nicolelis, a Raytheon afirmou inicialmente que "não poderia comentar neste momento". Procurada novamente, informou que "declinava de participar da reportagem". Nicolelis também não respondeu às perguntas enviadas a ele pelo Estado sobre o assunto.

Desde 2002, a Universidade Duke tem um contrato de US$ 26 milhões com a Darpa (agência de pesquisa científica do Departamento de Defesa dos EUA) para o desenvolvimento de tecnologias de interface cérebro-máquina, no qual Nicolelis é o investigador principal.

O último trabalho publicado por Nicolelis sobre o assunto, na revista Nature, em outubro de 2011, cita como fontes de financiamento a Darpa, o TATRC (um centro de pesquisas do Exército americano), os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH) e o Pioneer Award, um prestigiado prêmio de US$ 2,5 milhões que Nicolelis recebeu do NIH em 2010, por suas contribuições pioneiras na área.

O governo federal esclareceu ontem que os R$ 33,2 milhões sairão do MCTI, mas que a autorização do gasto foi dada pelo Ministério da Educação.

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