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Os filhos não devem ser confidentes dos pais

Fazer revelações e desabafos contínuos pode ser prejudicial para bem-estar emocional das crianças no longo prazo; exemplo pode ser visto em 'Gilmore Girls'

Cindy Lamothe, The Washington Post

27 Março 2017 | 07h00

Muitos pais bem intencionados tendem a compartilhar excessivamente com os filhos o que está se passando em suas vidas pessoais - quer seja contando-lhes seu mais recente conflito no trabalho ou queixando-se de problemas em casa com o parceiro.

Segundo psicólogos, porém, fazer confidências contínuas aos filhos poder ser prejudicial para seu bem-estar emocional no longo prazo. E embora um incidente isolado de relembrar um dia ruim no trabalho não cause dano, discutir regularmente problemas adultos como se faria com outro adulto, obriga as crianças a assumir papéis parentais impróprios similares aos de terapeutas por procuração ou cônjuges substitutos.

"Os filhos não devem servir às necessidades íntimas dos pais ou ser colocados no papel de guardadores de segredos", diz Lisa M. Hooper, pesquisadora e professora da Universidade de Louisville, que realizou amplos estudos sobre os efeitos da "parentification" - termo inglês para situações em que pais projetam seu papel em filhos. Em famílias divorciadas, por exemplo, alguns pais podem cair na armadilha de se apoiar em seus filhos como "confidentes" - revelando-lhes informações privadas de maneira a descarregar sentimentos sobre o pai/mãe, ou fazendo-os mediar conflitos.

Por exemplo, não é apropriado uma mãe dizer "Seu pai nunca leva as coisas adiante, ele está sempre me desapontando - estou farta dele", diz Juli Fraga, uma psicóloga clínica em São Francisco. Especialistas acreditam que esse tipo comportamento crie uma atmosfera de negligência, porque os filhos são responsabilizados por cuidar do bem-estar emocional e psicológico dos pais enquanto sufocam suas necessidades infantis normais, tais como brincar ou desenvolver amizades com crianças da própria idade.

Hooper observa que "quando uma criança começa a servir de amiga dos pais, e os pais têm suas necessidades atendidas pela criança, isso se torna problemático".

Sua pesquisa mostra que os efeitos da "parentificação" da infância podem ser prolongados e multigeracionais. Num estudo publicado no Journal of Family Therapy, foram recolhidos dados de 783 estudantes universitários para avaliar a ligação entre seus papéis e responsabilidades na infância com seu funcionamento psicológico adulto posterior. Os pesquisadores descobriram que pessoas que experimentaram a "parentificação" na infância enfrentam um risco aumentado de ansiedade, depressão, distúrbios alimentares e uso indevido de substâncias quando adultas.

"Pais e tutores deveriam estar no topo da hierarquia do sistema familiar", diz Hooper. Um pai (ou mãe) que pede constantemente a um filho (a) conselho sobre o relacionamento ou se queixa a ele sobre outros membros da família, por exemplo, está invertendo o papel de adulto e criança, porque está se apoiando no filho (a) para fornecer o mesmo tipo de apoio emocional normalmente buscado num amigo confiável ou no cônjuge.

E embora seja verdade que filhos que assumem papéis mais do tipo de adultos possam ter resultados positivos, tais como uma forte ética do trabalho, resiliência e eficácia pessoal - quando isso é levado ao extremo, começam-se a ver crianças ansiosamente carentes, trabalhadoras compulsivas e com dificuldades de conciliar suas responsabilidades escolares com seu papel de confidente em casa.

"Uma criança imbuída de um verdadeiro senso prematuro de responsabilidade pode carregar esse traço consigo para sempre", diz Gretchen Kubacky, uma psicóloga clínica e especialista em relacionamentos de Los Angeles.

Apesar das boas intenções, aprender onde traçar a linha divisória pode ser particularmente espinhoso para pais que querem ser vistos como "melhor amigo" de seus filhos. Em muitos casos, isso acontece porque eles têm sua própria história de problemas de apego causados por crescer com tutores distantes, rígidos ou negligentes - e agora tendem a compensar tornando-se abertamente envolvidos na vida de seus filhos.

"A amizade é recíproca, baseada num mútuo compartilhamento de equanimidade e igualdade", diz Fraga. E os filhos simplesmente não possuem a mesma compreensão e maturidade emocional dos adultos. Isto não significa que não se deva ser afetuoso e amável - mas distinguir entre ser honesto e solidário e também manter os limites apropriados.

"Algumas pessoas tendem a não ver seus filhos como seres separados delas, mas como meras extensões de si mesmas", acrescenta Fraga. "Elas não têm o filtro para compreender que o filho (a) tem 7 anos, não 37."

Fraga acredita que a linha esteja sendo cruzada cada vez mais hoje em dia com nossa cultura de compartilhamento excessivo na mídia social e influências da cultura pop. Um exemplo desses limites borrados pode ser visto na famosa série de TV Gilmore Girls (Tal mãe, tal filha) - em que a relação mãe-filha entre Rory e Lorelai há muito vem se caracterizando por uma qualidade invejável de proximidade. Mas como em muitas amizades entre pais e filhos, as consequências imprevistas só se mostrarão após a adolescência.

Em temporadas anteriores, Lorelai apareceu como uma mãe com um pendor para compartilhar em excesso com a filha adolescente - muitas vezes borrando a linha entre mãe e filha. Esta forma leve de "parentificação" pode parecer inofensiva, mas ao se observar uma Rory agora com 32 anos, os limites frouxos que ela compartilhou com a mãe, voltam para assombrá-la. O reinício da nova temporada, "A Year in the Life", oferece o retrato de uma Rory que luta contra acessos de ansiedade, e com a dificuldade de confiar em suas próprias decisões com respeito a sua carreira e seus interesses amorosos.

"Quando adultas, as crianças que foram "parentificadas" tendem a não ter confiança e (ter) uma incapacidade de acreditar que podem pensar por conta própria os problemas mais comezinhos da vida", observa Fraga. "Isto pode realmente eclipsar a capacidade de uma pessoa de receber e ser amada como adulta, porque é perigoso demais deixar alguém se aproximar quando se foi esmagada."

Em seu livro Lost Childhoods: The Plight of the Parentified Child (Infâncias perdidas: o sofrimento da criança "parentificada", em tradução livre), o autor Gregory Jurkovic escreve que crianças que assumem papeis paternais durante seus anos formativos são posteriormente afetadas por desconfiança interpessoal, ambivalência, envolvimento em relacionamentos danosos, e um senso destrutivo de direitos como adultos.

"Os limites devem ser flexíveis, e se expandir e se contrair com base no que é apropriado para a idade", diz Hooper. É ótimo que pais compartilhem acontecimentos diários com os filhos, mas fundamentalmente, isto se resume a compartilhar informações de acordo com o desenvolvimento da criança, e não mais do que coisas com as quais ela possa lidar. Por exemplo, falar com os filhos sobre a importância das eleições recentes, contra vociferar ou esperar que eles preparem sua própria merenda para a escola porque se está preocupado demais com o que está aparecendo nos noticiários.

"Para vermos plena e separadamente as necessidades alheias, precisamos reconhecer sua subjetividade de serem pessoas muito diferentes de nós", diz Fraga. "Com pensamentos, sentimentos e fases de desenvolvimento diferentes." 

Por fim, uma paternidade responsável não é sinônimo de contenção ou de mostrar indiferença, mas a capacidade de diferenciar onde a pessoa termina e onde o filho (a) começa. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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