Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Pelo menos 904 mil pessoas esperam por uma cirurgia eletiva – não urgente – no Sistema Único de Saúde (SUS). Parte desses pacientes aguarda o procedimento há mais de 10 anos. Isso é o que mostra levantamento inédito feito pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) com dados das secretarias da Saúde dos Estados e das capitais brasileiras obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação. A demora para realizar procedimentos, afirmam especialistas, pode agravar o quadro dos pacientes. 

Segundo a entidade, o número de demandas represadas é provavelmente mais alto, já que somente 16 Estados e 10 capitais responderam. Há ainda a fila por procedimentos nos serviços de saúde federais. 

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O levantamento revela também que a quantidade de pessoas que aguardam cirurgia no sistema público é maior do que o medido pelo Ministério da Saúde. Em julho deste ano, a pasta divulgou a primeira lista única desse tipo de procedimento – antes disso, os números eram registrados só pelos Estados e municípios e nunca haviam sido centralizados. 

Na ocasião, a pasta informou que a fila era de 804 mil solicitações no País. Na última semana, novo balanço apresentado pelo ministério apontou que, após avaliação feita pela ouvidoria, o número caiu para 667 mil pedidos porque havia duplicidade de cadastros na primeira lista.

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“Tanto o número do ministério quanto o levantado pelo CFM são subestimados porque parte dos Estados não respondeu ou não possui os dados organizados. Há ainda aquelas pessoas que precisam da cirurgia, mas nem sequer têm acesso ao especialista que dá o encaminhamento”, destaca o presidente em exercício do CFM, Mauro Luiz de Britto Ribeiro. 

O próprio ministro da Saúde, Ricardo Barros, admitiu ao Estado haver falhas de informação nas listas passadas pelos governos locais à pasta. “Quando os Estados começaram a fazer mutirões, constatamos que a maioria das pessoas que passaram pelas cirurgias não constavam da lista inicial passada pelo Estado. Isso demonstra que nossa fila não era exata”, diz ele, referindo-se aos mutirões realizados pelos Estados com verba extra federal repassada após a criação da fila única, em julho. 

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Complicações. A demora na realização de cirurgias pode levar ao agravamento do quadro de saúde do paciente, piorando o prognóstico e aumentando os custos para o próprio sistema. Quem não faz a cirurgia eletiva, diz Britto Ribeiro, “vai acabar caindo um dia no sistema de urgência e emergência ou operado num quadro muito pior do que no início da doença.” 

É o caso da comerciária Ana Célia Gonçalves, de 52 anos, que aguarda cirurgia renal desde 2012. Quando seu nome foi incluído na lista, ela tinha quadro leve de cálculo renal. Neste ano, descobriu que o rim direito perdeu totalmente a funcionalidade com o agravamento da doença. Agora, a cirurgia será de retirada completa do rim. 

“O exame deste ano mostrou que o órgão está com 13% da capacidade, o que, para os médicos, já é considerado perdido. O rim esquerdo também está em risco, tenho medo de perdê-lo também”, afirma. “Mas, quando reclamo, só ouço que tenho que ter paciência e aguardar na fila”, conta Ana Célia, que se trata no Hospital Universitário Walter Cantídio, em Fortaleza.

Ela diz sofrer de dores agudas e segue dieta restrita para o problema não piorar ainda mais. “Tenho medo de perder o outro rim e precisar, então, de diálise e entrar na fila de transplante.”

Procurado pela reportagem, o hospital afirmou que a paciente foi submetida a procedimento para remoção de cálculos no rim em 2012 e que, após a cirurgia e a recuperação, só procurou novamente a unidade em maio de 2016. "Novos exames foram solicitados e os resultados, apresentados pela paciente no fim do primeiro semestre de 2017, indicaram necessidade de cirurgia. Com os exames pré-operatórios já realizados, a paciente Ana Célia tem procedimento cirúrgico previsto para o início de 2018", diz a nota da unidade.

Longa espera. Ao menos 750 pedidos de cirurgias no País estão na fila há mais de 10 anos. No Estado de São Paulo, há casos em que o paciente aguarda desde 2005, recorde entre os Estados que responderam ao CFM. Na rede paulista, 143 mil esperam por cirurgia eletiva. 

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À reportagem, a secretaria paulista disse que demanda reprimida por cirurgias eletivas é uma realidade nacional, causada sobretudo pela defasagem na tabela de valores de procedimentos hospitalares do ministério, “congelada há anos e que não cobre os reais valores dos atendimentos”. Disse também que o número anual de procedimentos feitos sob gestão do Estado subiu 21% nos último sete anos, de 179,2 mil para 217,1 mil. Segundo o órgão, também são feitos mutirões de cirurgias.  

Entre os procedimentos com o maior número de demandas represadas no Brasil estão as cirurgias de catarata (113.185), correção de hérnia (95.752), retirada da vesícula (90.275), varizes (77.854) e de amígdalas ou adenoide (37.776). Só estes cinco tipos concentram quase metade de todos os pedidos na fila. 

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José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2017 | 03h00

SOROCABA - Quando a crise de refluxo gastro-esofágico chega ao pico, a cuidadora de idosos Claudia Aparecida de Lana, de 41 anos, é obrigada a correr para o hospital. “Os remédios por via oral não resolvem e é preciso aplicar os antiácidos por sonda.” 

Moradora de Salto, no interior paulista, ela foi diagnosticada com hérnia de hiato, uma doença no sistema digestivo, em estado avançado. No caso dela, há riscos de estrangulamento – quando há prejuízo à circulação sanguínea – e, além do refluxo, ela sofre com esofagite – inflamação severa do esôfago. Desde 24 de setembro de 2014 ela está na fila da cirurgia do sistema estadual de saúde. 

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Claudia conta que já vinha sofrendo com a doença há pelo menos outros três anos. “Fiz todos os regimes recomendados e emagreci bastante, mas não adiantou. Qualquer comida dá enjoo, deixa o estômago irritado, começa a dar refluxo. Fora a queimação e a dor insuportável. Os médicos disseram que a mucosa do esôfago está deteriorada e que corro o risco de desenvolver um câncer.” Depois de ser atendida ao menos dez vezes pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em hospitais de Salto e Sorocaba, médicos do Conjunto Hospitalar de Sorocaba diagnosticaram a necessidade de cirurgia. 

A cuidadora entrou no grupo de refluxo gastro-esofágico do Departamento Regional de Saúde de Sorocaba, órgão da Secretaria de Saúde do Estado, e foi encaminhada ao Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo.  

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Na consulta, há três anos e dois meses, fez exames e entrou na fila da cirurgia. Uma vez a cada dois meses ela vai ao hospital retirar medicamento ou fazer consulta, numa maratona que dura o dia todo. “Acordo às duas da madrugada, pois a van municipal passa a partir desse horário. Mas como o carro pega outros pacientes, geralmente demora até duas horas para passar em casa.” Após ser atendida, na capital, precisa esperar pelos demais pacientes. “Acabo retornando para casa às 10 da noite.” 

Na última consulta, no dia 27 de outubro, o médico se espantou com a demora da cirurgia e foi consultar o sistema. “Ele não me disse em que lugar da fila eu estou, só avisou que a cirurgia vai demorar mais um pouquinho.” 

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Claudia depende do trabalho como cuidadora de idosos para se manter. “Só que, com o problema do refluxo, está difícil trabalhar”, reclama. Ela recebe apoio do noivo, o metalúrgico Anderson da Silva, que conheceu em uma das idas ao HC. “Nisso tudo, é a única coisa boa que aconteceu. Nós pretendemos nos casar ano que vem. E e espero que eu esteja de esôfago novo”, afirma. 

Critérios. A secretaria paulista da Saúde disse que o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), uma autarquia estadual, define os critérios de prioridade dos pacientes encaminhados. 

Já o HC informou que existem critérios clínicos que determinam o tempo de espera pelo paciente. No caso da cirurgia do esôfago, muitas vezes a espera se deve à necessidade de melhorar o quadro geral do paciente. 

Como o hospital é de alta complexidade, há ainda os casos que são tratados como prioridade por causa da urgência ou do risco de morte. Sobre o problema de Claudia, afirmou que não poderia ter acesso ao prontuário da paciente só com as informações disponíveis, como nome, cidade e idade.

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Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - O Ministério da Saúde diz investir na informatização das unidades de saúde para ter noção exata da demanda por cirurgias eletivas no Brasil. Além disso, segundo a pasta, recursos têm sido repassado aos Estados para ajudar a resolver o problema. 

“O nosso objetivo é estabelecer a fila única e informar no aplicativo e-saude a posição de cada paciente na lista de espera. Esperamos que isso esteja disponível até o fim de 2018, mas reconheço que há uma dificuldade nas informações”, declarou o ministro Ricardo Barros.

Após a criação da fila única, em julho, segundo Barros, o ministério liberou R$ 250 milhões extras aos Estados para investimento nas cirurgias eletivas. Até agora, R$ 100 milhões já foram faturados. A maior parte do repasse está sendo usada em mutirões de procedimentos. O total de cirurgias eletivas feitas no País, diz a pasta, cresceu 39% – passou de 109,7 mil em janeiro para 152,6 mil em setembro. 

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Desequilíbrios. Os mutirões de cirurgias podem ajudar a aliviar as filas, mas não são a solução definitiva, alertam especialistas. Para Walter Cintra Ferreira, coordenador do Curso de Especialização em Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde da Fundação Getulio Vargas (FGV), os governos federal, estadual e municipal precisam investir na ampliação dos serviços de saúde, na melhor distribuição dos especialistas e na informatização da rede. 

“Temos um sistema subdimensionado para a demanda que tem. Para piorar, os profissionais não estão distribuídos de forma equitativa pelo País. Há uma concentração muito grande de especialistas nos grandes centros, principalmente no Sul e no Sudeste”, avalia. “Os mutirões são plenamente válidos, mas é uma medida para mitigar uma situação de crise. A solução verdadeira está em investir em maior qualidade dos serviços públicos”, acrescenta.

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Outro desafio é saber o tamanho real da fila. “Uma das coisas que falta ao SUS é integrar informações. Se tivéssemos todos os sistemas integrados, teríamos ideia melhor da demanda e das prioridades”, diz Ferreira. 

Segundo o CFM, uma fila maior na pesquisa não significa, necessariamente, ser pior no atendimento, mas, sim, que a regulação está melhor sistematizada. Alguns Estados que não responderam, por exemplo, justificaram não ter controle da demanda.

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