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REUTERS / Andres Stapff

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Países da América Latina vão combater zika e comprar remédios em conjunto

Brasil deve adotar teste único para zika, dengue e chikungunya; ministro voltou a defender ligação entre vírus e microcefalia

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Rodrigo Cavalheiro,
ENVIADO ESPECIAL

03 Fevereiro 2016 | 22h52

MONTEVIDÉU - Uma reunião de emergência entre 12 ministros latino-americanos para tratar do combate unificado ao zika vírus terminou com a aprovação de 16 medidas ou orientações nesta quarta-feira, 3, na sede do Mercosul, em Montevidéu. O documento propõe “buscar mais recursos”, “trocar experiências sobre bebês com microcefalia” e “negociar compras conjuntas de medicamentos de alto custo”. 

Os pontos mais concretos foram a criação da comissão para monitorar os casos de zika e a distribuição de informação sobre a doença em portos, aeroportos e postos de fronteira. No ponto da aquisição em lote de medicamentos, o texto cita os indicados para a Síndrome de Guillain-Barré, relacionada pelo Brasil à propagação do zika.

O ministro da Saúde do Brasil, Marcelo Castro, afirmou ainda que o País terá em um mês, nos postos do Sistema Único de Saúde (SUS), o teste que detectará se um paciente febril picado pelo mosquito Aedes aegypti tem zika, dengue ou chikungunya. O teste havia sido anunciado em 15 de janeiro, mas a previsão era de que estaria disponível só no meio do ano. 

Atualmente, são necessários testes separados e uma das maiores dificuldades no diagnóstico do zika é que três em cada quatro pacientes não procuram o médico por terem sintomas muito leves. Também por isso, a projeção de infectados feita pelo Ministério da Saúde varia de 500 mil a 1,5 milhão. “Se a pessoa tiver infecção, virose, dor de cabeça ou dor no corpo, irá ao médico, retirará o sangue em duas ou três horas e sairá o resultado dizendo se tem uma das três doenças. O teste já foi desenvolvido, está sendo produzido e será distribuído no fim do mês.” Ele ressaltou que o exame interessará mais às gestantes, em razão da ligação feita pelo Brasil entre o vírus e bebês com microcefalia.

Essa relação fez o brasileiro ser o mais procurado por dezenas de jornalistas de todo o continente após a divulgação de declaração conjunta. Castro era questionado sobre as provas dessa conexão. Há 4.700 suspeitas e 407 confirmações de microcefalia no Brasil. “Temos certeza absoluta, inequívoca, dessa relação. Antes tínhamos 150 casos em um ano e em alguns meses fomos a milhares”, sustentou. Entre os argumentos que expôs, o primeiro é a coincidência geográfica entre a área mais atingida pelo zika, o Nordeste, com 86% dos casos, e o maior número de crianças atingidas. E citou três testes ligados a bebês com subdesenvolvimento craniano. Um encontrou o vírus em um feto, outro em uma criança morta em um aborto natural e um terceiro na placenta após um parto. 

Pressionada a opinar sobre a convicção brasileira, a diretora da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), Carissa Etienne, disse que as grávidas devem ter cuidados especiais, mas lembrou que os únicos relatos de microcefalia associada ao vírus estão no Brasil. Ela afirmou ainda que a entidade precisa multiplicar por dez seu investimento no combate ao zika vírus no continente e chegar a US$ 8,5 milhões e alertou que a fumigação é eficaz apenas contra o mosquito adulto. “É ótimo para fotos, mas o efeito prático é muito discutível.” 

"O tempo comprovará (a ligação entre zika e microcefalia) ou não”, disse o ministro Alejandro Gaviria Uribe, da Colômbia - onde o governo estima que haja 20 mil infectados por zika. Ele defendeu que uma gestante tem direito de abortar, em decisão conjunta com médico, se enxergar na gravidez de uma criança com microcefalia um risco para sua saúde mental. Questionado sobre a possibilidade de flexibilização do aborto, o ministro brasileiro foi enfático. “Não, a lei brasileira proíbe.”

Expansão. Nesta quarta-feira, a Organização Mundial da Saúde (OMS) indicou que 32 países e territórios têm casos autóctones de zika vírus. Desses, 26 estão nas Américas, além de Cabo Verde, Maldivas, Fiji, Samoa, Ilhas Salomão e Vanuatu. A OMS também sugeriu que a Europa começasse a se preparar para o surgimento de casos locais a partir de abril. 

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