Marcello Dantas/O Popular
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Para especialista, recusa de jovem à hemodiálise pode estigmatizar terapia

Segundo a presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Carmen Branco Martins, hoje 110 mil pacientes fazem o tratamento

O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2017 | 20h43

A presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Carmen Branco Martins, manifestou preocupação com a resistência do jovem de Goiás José Humberto de Campos ao tratamento contra uma doença crônica renal. A mãe do paciente conseguiu liminar judicial para obrigá-lo a passar por hemodiálise

O risco, afirma ela, é de estigmatizar uma terapia que funciona bem. “Hoje, no País, temos 110 mil pacientes em programas de hemodiálise e são feitos mais de 5 mil transplantes renais por ano. Há mais de 1,5 mil crianças em tratamento.” 

Segundo ela, seguindo o tratamento e a dieta corretamente, a pessoa pode ter boa qualidade de vida. "É normal, na idade dele, levar um susto com o diagnóstico da doença crônica e vislumbrar um horizonte sombrio. Nesse momento, é importante que ele seja levado a entender o que acontece, a compreender o problema e tomar, com a família e a equipe médica, uma decisão compartilhada sobre o tratamento." 

De acordo com a médica, embora sejam terapias recentes, a hemodiálise e a diálise peritonial, em que a pessoa pode fazer a depuração do sangue em casa, até dormindo, evoluíram muito nos últimos anos. "O transplante também salva vidas no mundo todo. Muitas pessoas nasceram sem um rim ou são doadoras e vivem com um rim só de forma normal. O transplantado pode viver 20 ou 30 anos com o rim novo, desde que tome os medicamentos e os cuidados necessários. Se ainda assim perder o órgão, pode voltar para a hemodiálise e seguir com a vida."

Doutora em nefrologia, a médica conta que até a década de 1960, a doença crônica renal não tinha tratamento e as primeiras pessoas a se submeterem à hemodiálise eram chamadas de "sortudas" por serem afortunadas de terem acesso à inovação. "Num mundo em que tantas vidas jovens se perdem em acidentes e violência, seria bom se a família e os profissionais que cuidam do caso convencessem o jovem a se adaptar à nova realidade e ver o lado bom da vida."

Impasse. A liminar determina que ele siga com o tratamento, mas “sem qualquer tipo de coerção física”. O jovem diz que vai parar. “Se isso acontecer, a mãe não pode fazer nada para obrigá-lo”, explica Dorvanir Matos, advogada da mãe do rapaz.

O advogado que defenderá José Humberto não quis falar com o Estado, alegando necessidade de estudar melhor o caso. O juiz ainda deve nomear junta - com psiquiatra, psicólogo e especialistas em nefrologia - para avaliar as condições de saúde e psicológicas do rapaz. 

 
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