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Para médicos, primeira vítima de dengue em São Paulo tinha ‘virose’

Fabiana Cambricoli - O Estado de S. Paulo

08 Abril 2014 | 21h 23

Israel Barbosa, de 6 anos, que morreu no dia 2, foi duas vezes a unidade de saúde no Jaguaré antes de ter diagnóstico correto em pronto-socorro

SÃO PAULO - Primeira vítima da dengue do ano na capital paulista, Israel Barbosa, de 6 anos, passou duas vezes por uma unidade de saúde antes de ter o diagnóstico correto da doença. Nas vezes em que buscou a Assistência Médica Ambulatorial (AMA) Jaguaré, na zona oeste, os médicos disseram tratar-se de uma virose. A Secretaria Municipal da Saúde vai investigar o atendimento dado ao garoto.

Segundo a família, Israel começou a apresentar febre alta, vômito e dor de cabeça em 25 de março. A mãe do menino o levou à AMA no mesmo dia. "O médico não pediu nenhum exame. Só deu a medicação para febre e disse para ele ficar em repouso", conta a doméstica Dalvaci Barbosa de Oliveira, de 48 anos, mãe do garoto, que mora com os outros três filhos na favela Nova Jaguaré.

No dia 28, o menino voltou a apresentar febre muito alta, o que fez a mãe voltar à AMA perto de casa. "Foi outra médica que atendeu. Expliquei que ele já tinha ido lá, mas ela também disse que era virose", conta a mãe. "Cheguei a comentar: ‘que virose brava, né, doutora?’, e ela disse que já tinha visto paciente que levou 20 dias para sarar."

No dia 31, o garoto teve nova piora e, desta vez, a mãe preferiu levá-lo ao Pronto-Socorro Municipal da Lapa. No dia seguinte, já com hemorragia, ele foi transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Universitário, mas morreu um dia depois.

Segundo Dalvaci, em nenhum momento os médicos da AMA levantaram a hipótese de dengue. "Sabia que o bairro tinha vários casos, mas nem imaginei que meu filho tivesse, porque dois médicos falaram que era virose. Quando você ouve algo do pediatra, você não vai discutir." Com 208 casos desde janeiro, o Jaguaré é o bairro com a maior incidência de dengue na cidade.

Apuração. Segundo a Prefeitura, é procedimento padrão, em casos de morte por dengue grave, "a verificação do atendimento realizado pelas unidades de saúde". Em janeiro, a Coordenação de Vigilância em Saúde (Covisa) distribuiu para todas as unidades nota técnica com as instruções para o atendimento de casos suspeitos de dengue. A nota será redistribuída.

"Acho que se eles tivessem pedido o exame no primeiro dia, talvez meu filho estaria vivo. Talvez não teríamos dado medicamentos passados pelo médico, que podem ter agravado o quadro dele", diz Dalvaci.