Para psicóloga da ONG Pode Crer, problema não é a droga, mas relação que se estabelece com ela

Presidente da organização defende abordagem pelo diálogo e compreensão

Entrevista com

Marta Meirelles

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

04 Junho 2014 | 15h05

Qual é o diferencial da redução de danos?

Nunca chegamos com o discurso de que a pessoa precisa parar de usar droga. Dentro da redução de danos, não consideramos que o problema é a droga, mas a relação que se estabelece com ela. Na praça você tem polícia, não come, toma doses absurda de álcool - tem um risco muito maior do que se for à praia e tomar vodca com amigos. A substância é a mesma, mas a relação que se estabelece é outra. Como eles são muito oprimidos, acabam sendo muito opressores quando podem.

E como é a evolução das pessoas que são acompanhadas?

Na medida em que as pessoas vão se desvinculando ao reduto na rua, em algum momento quer fazer teste de HIV, tomar banho, conversar com psicóloga, jantar, até o momento que achar que quer parar. As pessoas fazem atividades na ONG, refletem, acabam substituindo o crack por maconha. Até o momento em que a droga passa a não ser mais o lugar central da pessoa. O crack e o álcool são os mais comuns.

Qual a relação da ONG com serviços tradicionais como o Centro de Atendimento Psicossocial (Caps)?

Essas pessoas não aderem ao serviço tradicional, o Caps, por exemplo. Mas nós trabalhamos totalmente ligados à saúde, à assistência social, ao trabalho e às questões jurídicas. Eles não vão ao posto de saúde porque estão sujos e não são bem atendidos. Nós não trabalhamos com dependência química, mas com a exclusão social. O projeto é individualizado. Eles sabem que podem contar o que quiserem pra gente. Participam de atividades, descobre-se talentos.

E como a casa funciona?

O trabalho na rua ocorre duas vezes por semana. A casa de passagem das 20 às 8 horas começou a funcionar em fevereiro. A pessoa que quer sair da rua faz um projeto de vida com educadores e ficam até seis meses na casa. Ajudamos a pessoa a alugar um quarto, administrar o dinheiro, para que, gradativamente, saia da rua e resolva a própria vida. Há dias com 25 pessoas na casa e 8 vagas para dormir.

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