Participação de deficientes em esportes e convívio com outros portadores ajudam na reintegração

Pesquisa da USP sobre o tema ganhou prêmio da Universidade de Massachusetts, nos EUA

Agência USP

27 Julho 2010 | 17h33

SÃO PAULO - Um estudo sobre as mudanças na vida e na relação com a comunidade de pessoas que se tornaram deficientes físicas após serem vítimas de acidentes, feito por três pesquisadoras da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, aponta que a participação em projetos de esporte adaptado e o convívio com outros portadores de deficiência auxiliaram na reintegração à sociedade.

A pesquisa acaba de ganhar o prêmio do Centro para Reconstrução de Comunidades Sustentáveis Após Desastres, da Universidade de Massachusetts, em Boston (EUA).

De acordo com a professora que orientou a pesquisa, Michele de Andrade, da EACH, a ideia inicial era a identificar se algumas políticas de acessibilidade chegavam efetivamente aos portadores de deficiência física. “Durante a elaboração do ensaio, no entanto, considerou-se a perspectiva do acidente e procurou-se discutir aspectos da relação entre a pessoa com deficiência e a comunidade”, afirma.

As pesquisadoras realizaram entrevistas com portadores de deficiências físicas e tinham como ponto de partida duas perguntas: “Como foi o momento que você se tornou portador de deficiência? e "Se você pudesse mudar alguma coisa na comunidade, o que seria?”. Michele diz que essa transição é um processo demorado, repleto de rompimentos individuais e sociais. "A dependência e a compaixão do outro foram pontos comuns nas entrevistas”, revela.

No estudo, os pesquisados relataram que inicialmente tinham total dependência para realizar atividades cotidianas, como a higiene pessoal. “Após o período de reabilitação, o processo de independência começou a ser adquirido”, diz Michelle. Outro aspecto comum entre os entrevistados foi que todos estão inseridos em projetos de esporte adaptado. “Nos relatos, ficou clara a relação entre a participação nos projetos e a aquisição da independência.”

Apoio

Os entrevistados mostram que houve apoio dos familiares, embora alguns indiquem negação e revolta. “Ficou evidente que o maior apoio encontrado foi quando eles tiveram oportunidade de convívio com pessoas que também tinham alguma deficiência”, afirma a orientadora.

Michele explica que a pesquisa traz a possibilidade de cada pessoa refletir sobre a sua contribuição no meio em que vive. “A compreensão do processo iniciado a partir do acidente é essencial para essa tarefa”, ressalta.

Outra conclusão destacada pela professora é a importância do Estado na reconstrução de uma comunidade sustentável. “Vimos que o acidente passa pela própria pessoa que o sofre, pela família, pela comunidade ao redor, chega ao Estado e atinge proporções ainda maiores. Nesse contexto, o cenário atual de inclusão ainda pode ser questionado”, afirma.

O estudo aponta que reconstruir uma comunidade sustentável não é tarefa simples que caiba exclusivamente a algumas pessoas, órgãos estatais, nacionais ou supranacionais. “É tarefa conjunta de todos aqueles que constituem a comunidade e desfrutam de seu espaço, o que possibilita uma interação próxima com a pessoa que tem deficiência”, destaca Michele.

O centro da Universidade de Massachusetts concedeu menção honrosa ao trabalho durante a Conferência Internacional sobre Reconstrução de Comunidades Sustentáveis para Pessoas Idosas e Pessoas com Deficiência após Desastres, na mesma universidade, entre 12 e 15 de julho.

As autoras foram homenageadas e apresentaram o estudo em uma das sessões do evento. Além da professora Michele, participaram da pesquisa as alunas de iniciação científica Alessandra Marques Sohn, do curso de graduação em Ciências da Atividade Física da EACH, e Giovanna Pereira Ottoni, ex-aluna de Ciências da Atividade Física e atual estudante da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP.

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