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Wilton Júnior/Estadão

Pesquisa da Fiocruz revela presença do zika vírus na saliva e urina

Ainda não se sabe se transmissão da doença se dá por esses fluidos, mas instituição recomenda que grávidas redobrem cuidados

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Clarissa Thomé e Isadora Peron,
O Estado de S. Paulo

05 Fevereiro 2016 | 12h27

RIO - Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) isolaram na urina e na saliva de pacientes o zika vírus ativo, ou seja, com capacidade de infecção. Ainda não é possível informar se a transmissão da doença se dá por esses fluidos, mas a instituição recomenda que grávidas aumentem os cuidados. Elas devem evitar beijar pessoas com zika e o compartilhamento de objetos como copos e talheres. Também não é recomendado que permaneçam em locais com grandes aglomerações. 

“O que se encontrou foi o vírus na sua estrutura inteira se replicando na saliva e na urina. Esse feito é inédito. Anteriormente, pesquisadores haviam encontrado partículas do vírus nos fluidos. Não significava que ele pudesse estar se replicando (se reproduzindo). Agora foi comprovado que o vírus se replica nesses meios”, afirmou o presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha.

O anúncio foi feito às vésperas do carnaval, quando há maior aglomeração de pessoas e aumento do contato físico.

“As evidências que temos hoje não nos dão base para dizer que as pessoas não devam aproveitar o carnaval. Estamos elevando o grau de cautela no grupo em que há maior potencial de danos, que são as grávidas. Mas não temos isso (evitar o beijo) como uma medida de saúde pública, pelo amor de Deus. Pode beijar”, disse Gadelha. “O mosquito é o grande transmissor do vírus. Mas havendo a suspeita de que possa no futuro vir a ser comprovada, mesmo que em quantidades menores e com peso epidemiológico menor, que a via de transmissão por esses fluidos é possível, cautelarmente as pessoas devem tomar medidas para se proteger.”

Amostras. A pesquisadora Myrna Bonaldo, chefe do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz, liderou os estudos. Foram coletadas amostras de dez pacientes com exantema (manchas vermelhas no corpo) acompanhados no Instituto de Nacional de Infectologia (INI), também da Fiocruz. O vírus foi isolado nas amostras de dois pacientes. Em uma delas, o zika foi encontrado na saliva. Em outra, na saliva e na urina. 

Em laboratório, essas amostras foram colocadas em contato com células Vero, linhagem usada por cientistas para verificar atividade viral. Os pesquisadores observaram o efeito citopático nessas células – elas estavam sendo danificadas ou destruídas, o que comprova que o vírus estava ativo. A presença do zika foi confirmada pela técnica de RT-PCR, em que é feito o sequenciamento genético do vírus. 

Testes laboratoriais também descartaram a presença dos vírus da dengue e chikungunya. Para essas análises, foi usado o kit NAT Discriminatório, desenvolvido pela Fiocruz, e que permite fazer o teste dos três vírus de uma só vez.

“Fiquei muito surpresa de encontrar o vírus ativo principalmente na urina. Normalmente, os flavivírus são extremamente sensíveis ao pH. Na urina, que tem pH ácido, normalmente ficam inativos”, afirmou Myrna. “Foi comprovado pela primeira vez a presença de vírus ativo, com potencial infeccioso, em urina e saliva de pacientes com zika em fase exantemática (os pacientes estavam com manchas no corpo). O significado dessa descoberta na transmissão, na epidemiologia da doença, ainda deve ser esclarecido.”

O presidente da Fiocruz fez um paralelo com a mononucleose, infecção viral conhecida como a “doença do beijo”, que provoca sintomas como febre alta, tosse, dificuldade para engolir. “A mononucleose, por exemplo, se transmite por beijo e chega ao conjunto do organismo. No caso do zika, o que temos é a presença de um vírus na saliva e não sabemos se ele faz percurso semelhante a outros que atingem todo o organismo. Não há qualquer evidência de que esse vírus se reproduza nas vias respiratórias.”

Novas pesquisas precisam ser feitas para identificar quanto tempo o vírus permanece ativo nesses fluidos – quanto maior a permanência, maior o potencial de transmissão. Será preciso investigar se, depois de ingerida a saliva, o vírus sobrevive no suco gástrico, onde o pH é baixo.

Fenômeno. Os pesquisadores vão repetir os testes com outros flavivírus, como dengue e febre amarela, para identificar se o fenômeno se repete. Também vão avaliar a possibilidade de o vírus zika ter sofrido mutação, o que explicaria a capacidade de se manter ativo na urina e resistir em ambiente com pH ácido.

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