Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

Pesquisa liga área do cérebro à sensação de apego

Neurocientistas brasileiros estudam mecanismos cerebrais envolvidos nos distúrbios psiquiátricos, como depressão pós-parto

Clarissa Thomé, RIO,

28 Setembro 2012 | 22h30

Estudo de neurocientistas brasileiros abre caminho para ajudar a compreender os mecanismos envolvidos em distúrbios psiquiátricos, como a depressão pós-parto e transtornos de personalidade.

A pesquisa, coordenada pelos neurocientistas Jorge Moll Neto, Ricardo de Oliveira e Patrícia Bado, do Instituto D’Or, identificou, com imagens de ressonância magnética, quais estruturas do cérebro estão relacionadas ao sentimento de apego e ternura. O trabalho foi publicado no periódico Journal of Neuroscience.

 

O estudo acompanhou 27 pessoas, com idades entre 20 e 35 anos. Os pesquisadores liam cenários com situações positivas e negativas a respeito de situações familiares, mas também questões de trabalho. Enquanto isso, uma equipamento de ressonância magnética captava imagens do cérebro em funcionamento.

 

"Queríamos identificar as áreas do cérebro que respondem ao sentimento de ternura, conhecido como mecanismo de afiliação, que faz as pessoas se apegarem umas às outras", explicou Moll Neto. "Muitos trabalhos já mostraram imagens do cérebro reagindo a situações positivas ou negativas. Mas não havia nenhum controle para saber se era uma resposta emocional genérica ou se tinha o componente de apego, que é a afiliação."

 

Ao comparar o resultado das imagens, os pesquisadores puderam perceber que a região septo-hipotalâmica, área de transição entre o hipotálamo e a região septal, que fica na base do cérebro, era ativada diante de cenários como a doença de um irmão ou a homenagem do filho. Essa região do cérebro não reagia diante do anúncio de uma promoção no trabalho ou demissão súbita, embora a notícia positiva tenha ativado os circuitos de recompensa no cérebro.

 

"O hipotálamo é a área mais central, envolvida em regulação de resposta de sobrevivência, como, por exemplo, alimentação, resposta sexual, agressão. É o centro da motivação do cérebro humano. Já a região anterior, a septo-hipotalâmica, tem papel mais específico nos mecanismos sociais, de apego. Em camundongos, se você danificar essa região, a mãe não cuida mais da cria", explicou Moll Neto.

 

Circuitos. Para o neurocientista, a pesquisa aponta para circuitos cerebrais que poderão ser investigados com mais detalhes em algumas patologias, como depressão pós-parto, em que a mãe não consegue ter apego ao bebê. "Isso também pode ocorrer com distúrbios de personalidade, com comprometimento social grande. Psicopatas são capazes de ter sentimentos positivos e negativos, mas não experimentam remorsos. É possível que essas pessoas tenham alteração nesse circuito cerebral", afirma.

 

Nas próximas etapas do estudo, os pesquisadores vão tentar estimular esse sentimento de afiliação. Uma das linhas de trabalho usa a técnica chamada de neurofeedback. Durante a ressonância, a pessoa submetida ao teste saberá o grau de ativação da região septo-hipotalâmica enquanto imagina os cenários propostos pela equipe. "Ele tentará manipular esse grau de ativação voluntariamente", diz Moll Neto.

 

Em outra linha, será testado tratamento com o hormônio ocitocina, liberado naturalmente durante o parto. "A ocitocina liberada no organismo tem a função de contrair o útero, mas também tem efeito neurotransmissor no cérebro, estimulando a tendência de se apegar à cria", acrescenta. Os dois estudos ainda estão sendo desenhados. 

 

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