Pesquisa revela utilidade de 99% do DNA que era visto como 'lixo'

O maior conjunto de descobertas sobre o DNA humano desde que o genoma humano foi decifrado, em 2003, foi publicado na quarta-feira, com a divulgação de 30 estudos realizados por 442 cientistas em laboratórios de três continentes.

SHARON BEGLEY, Reuters

05 Setembro 2012 | 21h54

As descobertas, representando aquilo que a revista Nature chamou de "o guia para o genoma humano", variam do esotérico - o que é um gene? - ao prático - o fato de que apenas 20 trocas de genes podem estar na origem de 17 tipos de câncer aparentemente não-relacionados, o que dá aos laboratórios um número factível de medicamentos a serem trabalhados.

Os estudos provêm de um projeto de 196 milhões de dólares chamado Enciclopédia de Elementos do DNA, ou Encode, cujo objetivo é dar sentido à babel resultante do Projeto Genoma Humano - a sequência de 3,2 bilhões de bases químicas (ou "letras") que constituem o código genético de todas as pessoas.

"Entendemos o significado de apenas um pequeno percentual das letras do genoma", disse Eric Green, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas do Genoma Humano dos EUA, que patrocinou a maior parte do trabalho.

O Encode foi lançado em 2003 para construir uma "lista de peças" completa do "Homo sapiens", identificando qual trecho do genoma faz o quê. Trata-se de "um mapa de referência para todos os elementos funcionais no genoma humano", segundo o geneticista Joseph Ecker, do Instituto Salk de Estudos Biológicos, da Califórnia.

Os elementos mais conhecidos do genoma são os cerca de 21 mil genes que especificam quais proteínas uma célula produz. O gene do receptor de dopamina, por exemplo, produz receptores de dopamina nas células cerebrais, e o gene da insulina fabrica a insulina no pâncreas.

Apenas cerca de 1 por cento do genoma, no entanto, codifica proteínas, e o desafio tem sido descobrir qual é a função dos restantes 99 por cento, algo que durante anos foi chamado de "DNA lixo".

Mark Gerstein, da Universidade Yale, de New Hampshire, comparou os cientistas do Encode ao movimento Ocupe, que protesta contra a concentração de riquezas nas mãos de 1 por cento da população.

"Durante anos, todo mundo focava no 1 por cento; o Encode olha para os 99 por cento", disse Gerstein, que chefiou uma das equipes do projeto.

Ao examinar a parte menosprezada do genoma, os cientistas do Encode descobriram que cerca de 80 por cento do DNA antes visto como "lixo" na verdade desempenha uma função biológica. Primariamente, o DNA "nem tão lixo assim" constitui o painel de controle mais sofisticado fora da Nasa, com cerca de 4 milhões de pedaços de DNA controlando todo o resto.

"O DNA lixo, os 99 por cento, na verdade estão encarregados de administrar os genes", afirmou Gerstein.

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