Pesquisadores descobrem novo gene 'gorducho'

Estudo, publicado na revista 'Nature', revela que cientistas culpam gene errado pela obesidade. Camundongos que tiveram o chamado IRX3 desativado perderam de 25% a 30% de seu peso

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

12 Março 2014 | 15h08

Atualizada às 16h34

SÃO PAULO - Mais de sete anos de estudos e cerca de mil trabalhos publicados em todo o mundo em torno de um gene conhecido por ser fortemente relacionado à obesidade podem não ter trazido ainda nenhum fruto para o combate ao problema por um motivo simples: eles estavam olhando para o gene errado.

O desafio foi proposto por um novo trabalho liderado por um brasileiro radicado nos Estados Unidos. O estudo mostra que mutações no badalado "gene gorducho" (FTO), conhecidas como o mais forte elo genético com a obesidade, têm impacto na produção de proteínas de outro gene, localizado a uma longa distância dele no genoma, o IRX3.

As mutações no FTO funcionam como um interruptor da atividade do IRX3, apontam os autores na pesquisa publicada nesta quarta-feira, 12, na revista científica britânica Nature. Apesar de estarem localizados longe um do outro no genoma, essa interferência é possível porque as fitas de DNA não são lineares, mas se dobram, ficando enoveladas dentro das células.

"Assim, distâncias enormes podem acabar sendo desprezíveis. Com as dobras, um gene acabou ficando do lado do outro, e a interferência ocorre pelo contato", afirma o geneticista Marcelo Nóbrega, da Universidade de Chicago, principal autor da pesquisa.

Em camundongos, ao nocautearem a expressão desse gene, os pesquisadores observaram que, mesmo diante de uma dieta gordurosa e sem atividade física, os animais ficaram 25% a 30% mais magros do que aqueles que tiveram a mesma alimentação, mas não sofreram alteração no IRX3.

"Os camundongos com o nocaute apresentaram um metabolismo muito mais rápido. A explicação que encontramos é que o cérebro ativou o metabolismo", explica Nóbrega.

Expressão. Segundo o pesquisador, mutações no IRX3, no FTO e em outros 73 genes já relacionados à obesidade humana em geral se expressam muito mais no cérebro de pessoas que têm obesidade do que nas que não têm. "No final das contas, é o cérebro que regula a base genética da obesidade, não o tecido adiposo."

Ele lembra que na vida real pessoas que apresentam as mutações no gente FTO apresentam efeitos modestos. "Duas em cada três pessoas tem uma cópia das mutações Uma em cada seis tem as duas cópias. Mas, ainda assim, quem as tem é somente cerca de 3 quilos mais gordo do que não tem. Não é o gene que está causando a obesidade. As variantes aumentam o risco da doença." Isso porque a alteração é discreta, o IRX3 continua funcionando mesmo com as mutações.

A pesquisa, no entanto, sugere que o potencial de tratamento é muito maior. "Ao nocautearmos o gene que tem a expressão alterada por essas mutações, os camundongos não perderam gramas, mas um terço do peso. O potencial do gene em regular peso é muito maior", afirma Nóbrega.

Mas o pesquisador pondera que a descoberta ainda não tem nenhuma aplicação direta no combate à obesidade. "A verdade é que a maioria das pistas que seguimos para tentar desenvolver novas estratégias terapêuticas acabam dando errado ou demonstrando-se inviáveis. Pode não levar a nenhuma alternativa terapêutica. Mas é o que estamos investigando e investindo."

Consequência. Para ele, o principal ganho da pesquisa é mostrar um novo caminho para os estudos. "Centenas de laboratórios espalhados pelo mundo interessados em como FTO regula o metabolismo e a massa corpórea estavam provavelmente estudando o gene errado. Muitos deles vão agora redirecionar os esforços para entender como IRX3 regula isso."

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