Pesquisadores estudam efeitos de remédio para insônia

Os inusitados efeitos colaterais do zolpidem, princípio ativo de um dos medicamentos mais indicados para insônia, começam a despertar a atenção de médicos e pacientes. Horas após tomar a pílula para dormir, eles são tomados por ímpetos de levantar da cama, atacar a geladeira e comer sem restrições. Em outros casos, desabafam com o namorado no telefone, brigam, conversam ou ainda andam pela casa. Tudo isso seguido por uma amnésia no dia seguinte, que faz com que eles não se lembrem de nada além de terem ido para a cama em busca de horas de sono reconfortante. Apesar de conhecidos pelos médicos e previstos nas advertências do remédio, os efeitos estão sendo estudados por dois centros de pesquisa americanos, que preparam uma publicação relacionando principalmente o zolpidem à compulsão por comer que ataca algumas pessoas durante a madrugada. "Na nossa experiência clínica percebemos essa relação em pessoas mais suscetíveis", afirma John W. Winkelman, diretor do Centro de Saúde do Sono no Brigham and Woman's Hospital, de Boston, um dos centros que estuda o efeito colateral, junto com o Centro Regional de Desordens do Sono de Minnesota, em Minneapolis. Eles acreditam que essas reações são provocadas porque o cérebro confunde dois instintos - o de comer e o de dormir. Mesmo sendo médica e conhecendo teoricamente a possibilidade, a paulistana Mônica (o nome foi trocado a pedido da entrevistada), de 35 anos, não quis acreditar quando o marido contou o que tinha acontecido. "Acordei morrendo de fome e propus para meu marido que fôssemos tomar um belo café. Não acreditei quando ele me disse que eu havia jantado bem, junto com ele, acordado mais cedo, tomado café, comido bolo, pão e voltado a dormir", diz. "Me lembrava apenas de ter tomado o remédio e me deitado em seguida." A FDA, agência reguladora de alimentos e remédios dos Estados Unidos, acompanha as pesquisas. De acordo com a empresa francesa Sanofi-Aventis, que comercializa o produto, o zolpidem é utilizado com segurança há 13 anos no país, e os efeitos colaterais possíveis são notificados às agências reguladoras de todos os países. Automáticos - Para médicos do sono, os relatos não são raros, principalmente pela popularidade do medicamento, um dos mais modernos e indicados para tratamento da insônia - nos Estados Unidos, suas vendas alcançaram 26 milhões de unidades no ano passado, um aumento de 53% desde 2001. No Brasil, as marcas chegam a cerca de um quinto disso. "É um medicamento bom para quem tem insônia. Mas, por ser um hipnótico, podem ocorrer reações desse tipo, de a pessoa fazer alguma ação automática, a que está acostumada. Como ele provoca uma leve amnésia, eles não se lembram quando acordam", explica Dalva Poyares, do Instituto do Sono, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Mas não é um efeito grave, apenas uma coisa para os pacientes tomarem conhecimento", diz. "Eu tomava, ligava para o meu namorado e brigava muito. Falava absurdos, chorava, xingava, coisas que eu nunca falaria. Quando acordava, não me lembrava, não imaginava que podia ter feito isso", conta a administradora de empresas Marta Regina Bueno, de 24 anos. Assustada com o efeito, após ser convencida pelo namorado e pela irmã do que havia acontecido mais de uma vez, ela levou a dúvida ao médico. "Ele explicou que isso pode acontecer, mas como tenho muita insônia, há anos, e só esse remédio me ajuda a dormir, eu continuo tomando", diz ela, que usa o zolpidem há um ano e seis meses. "Agora estão todos prevenidos. Se acontecer alguma coisa, eles sabem que estava dormindo." "Esse efeito pode ser comum a todos os hipnóticos. Mas, o zolpidem, até pelo aumento nas vendas e pelo alcance da propaganda dele, está sendo alvo de mais estudos científicos. Uma das publicações relatava cinco ocorrências de comer noturno durante 11 meses em pacientes que tomavam zolpidem", explica o médico do sono Denis Martinez, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Martinez afirma que o princípio ativo é o remédio para insônia com maior número de publicações em revistas científicas. Ele usa uma analogia para explicar o que acontece - ao menos o que se acredita que aconteça. "Você pega uma criança de dois anos que está dormindo e coloca em pé, ela sai andando. Num adulto, não dá pra fazer isso porque ele acorda antes. Mas, se estiver sob efeito de medicamento, não vai acordar." A conseqüência, em alguns casos, pode ser uma queda dentro do quarto ou uma batida contra a parede. "Acordei no chão", conta a estudante Aline Santos, de 22 anos. No meio da madrugada, ela se levantou, caminhou até a cozinha, mas escorregou no caminho. O barulho da queda acordou o namorado, que correu para ver o que tinha acontecido. "Fui parar no hospital. Mas foi mais pelo susto, não aconteceu nada grave", diz, hoje, rindo. No caso dela, não foi a primeira vez. Aline conta que quando era mais nova chegou a ter episódios de sonambulismo, sem tomar qualquer tipo de medicamento. Há cerca de três anos, quando passou por uma crise na família, passou a ter insônia. O problema persistiu, ela chegou a experimentar outros medicamentos, mas só conseguiu dormir com o uso de zolpidem. "O médico me contou que ele pode ter desencadeado novamente esses episódios de sonambulismo que eu tinha antes." "Já ouvi alguns casos assim. Vamos conhecendo mais sobre eles até pelo que os pacientes falam, alguns sentem mais efeitos do que o que a própria bula diz", afirma a professora Rosana Souza Cardoso Alves, presidente do Comitê Multidisciplinar do Sono da Associação Paulista de Medicina. Ela levanta outro problema, dessa vez relacionado ao uso indiscriminado do remédio, que precisa ser administrado por um médico - se ele for tomado incorretamente pode levar à dependência. "Tem gente que toma remédio para dormir que nem água, compra sem receita, prolonga o uso por mais tempo que o indicado. Aí, também pode acontecer de tudo."

Agencia Estado,

03 Abril 2006 | 09h13

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