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Luis Robayo/AFP

‘Plano de guerra’ da OMS contra zika prevê gasto de R$ 120 mi

Entidade começou a desenhar resposta ao problema; estão previstos até 30 centros de pesquisa ao redor do mundo

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Jamil Chade,
Correspondente

03 Fevereiro 2016 | 03h00

GENEBRA - A Organização Mundial da Saúde (OMS) se lançou em uma corrida global contra o zika vírus e para determinar o motivo da explosão nos casos de microcefalia. Os esforços para acelerar as pesquisas e implementar uma operação global tem como meta dar respostas ao fenômeno antes que a doença atinja a África e a Ásia, com milhares de potenciais casos e nas regiões com as maiores taxas de natalidade do mundo. 

Nesta terça-feira, 2, a entidade começou a desenhar seu plano global de resposta ao problema e prevê que, em um prazo imediato, precisará de R$ 120 milhões. Mas já indicou que o custo do combate contra a microcefalia, erradicar o mosquito e o zika vírus vai custar "bilhões".

 

Uma unidade especial com cerca de 50 especialistas foi criada na entidade, liderada pelo canadense Bruce Aylward. A OMS vai padronizar diagnósticos microcefalia e abrir até 30 centros de monitoramento para tentar identificar a doença pelo mundo. "Trata-se de um verdadeiro plano de guerra", comentou ao Estado um dos membros da equipe, na condição de anonimato. 

Na segunda-feira, 1º, o surto de casos de microcefalia e outros distúrbios neurológicos em regiões com registro de zika vírus como uma emergência internacional. Um dia depois, os especialistas da nova unidade já foram reunidos em um encontro em Genebra, na Suíça. 

Ao Estado, Aylward indicou que a operação vai custar inicialmente US$ 10,5 milhões (R$ 42 milhões) apenas para ser implementada. Mas, em dez dias, um fundo global será lançado, com um apelo a doadores. "A operação vai certamente custar milhões de dólares ", confirmou Anthony Costello, membro da nova unidade e que aponta que o estabelecimento do novo grupo já é um "aprendizado" dos fracassos registrados no combate ao ebola.

Ninguém esconde que a meta é a de começar a dar respostas sobre o vírus antes que ele chegue na África e na Ásia, continentes com serviços de saúde ainda mais precários que o Brasil e com uma taxa de natalidade alta. Isso tudo em países onde o mosquito é endêmico.

Nesta terça-feira, o governo da Tailândia informou à OMS sobre uma suspeita de zika e outros casos já surgem na Indonésia. "Se o zika vírus chegou até a América Latina, vindo do Pacífico, não há nada que o impeça de migrar para o continente africano e asiático. E isso poderia ser dramático", afirmou Costello, que também é o diretor do Departamento de Saúde Infantil da OMS. "Essas populações não tem qualquer defesa em relação ao vírus", explicou.

"As complicações da microcefalia podem ter efeitos devastadores. Ter crianças com microcefalia e ver isso se espalhar pela Ásia é alarmante. E o pior de tudo é que hoje não temos os instrumentos", insistiu.

Segundo ele, cientistas vão ser convocados para formular uma estratégia e reuniões com empresas e governos vão se proliferar. Seu departamento vai pedir outros US$ 10 milhões para estabelecer os cerca de 30 centros de monitoramento de microcefalia pelo mundo.

Entre os especialistas, a pressa é grande ainda para encontrar uma explicação para o salto em casos de microcefalia no Brasil. Uma das apostas é a de acompanhar o que está ocorrendo na Colômbia, justamente para saber se as mulheres contaminadas pelo zika e que estão grávidas terão problemas de má-formação das crianças, em seis meses.

"O problema é que não temos respostas para muitas das grandes perguntas sobre o assunto e existe a possibilidade de que um número muito maior de pessoas já tenha sido afetada", admitiu Costello. 

Uma das dificuldades, porém, refere-se à falta de um padrão internacional para medir a circunferência de cabeças de crianças e seu desenvolvimento nos meses seguintes. "Precisamos de um padrão para todos para saber qual é o índice real de casos", disse Costello, que explicou que especialistas vão se reunir para determinar um medida.

Para ele, não basta apenas medir as cabeças, mas também fazer seguimento das crianças nos meses seguintes. "Por isso, precisamos criar centros pelo mundo, principalmente em países em desenvolvimento " disse. 

Desespero. Para ele, uma comprovação da relação entre o vírus e a microcefalia pode ser acelerada se novos instrumentos de diagnósticos forem criados. "Precisamos desesperadamente de novos produtos. O zika não tem um diagnóstico comercial e os teste que detectam o vírus só conseguem registrar quando ele está ativo, que é um período de apenas cinco dias", explicou Costello. "Se não bastasse, a microcefalia também não é fácil de diagnosticar."

Uma vez mais, portanto, a OMS vai lançar um apelo por recursos para acelerar as pesquisas e espera contar com a colaboração do setor farmacêutico mundial. Se por anos ninguém se interessou comercialmente em desenvolver testes e nem vacina, Costello estima que agora exista um incentivo financeiro real.

No caso da dengue, por exemplo, apenas a Sanofi gastou em 20 anos mais de 1 bilhão de euros para desenvolver uma vacina que pode finalmente chegar ao mercado neste ano.  Se não bastasse, bancar uma operação global contra o mosquito pode incrementar a conta total de forma substancial, segundo especialistas que estiveram no encontro.

"Estamos adotando a política de que a associação entre o mosquito e a microcefalia é culpada, até provada inocente", disse Costello. "Temos casos de 2014 na Polinésia Francesa e agora no Brasil. Mas vamos ter de esperar mais alguns meses. Até lá, controlar o vetor transmissor é prioridade. Não existe uma recomendação para não viajar. Mas mulheres que estão grávidas podem desejar reconsiderar suas viagens." 

Apelo. Nesta terça-feira, a Unicef também anunciou que está solicitando que doadores financiem um pacote de US$ 9 milhões para bancar uma operação pela América Latina. Ela aponta que vai agir em comunidades no Brasil para fortalecer a resposta contra o vírus, orientando especialmente as mulheres e grávidas sobre como evitar as picadas do mosquito. 

Já a Cruz Vermelha espera coletar US$ 2,3 milhões para apoiar "uma resposta regional" para o surto de zika. Segundo a entidade, se o mosquito afeta a todos, o maior impacto será sentido nas camadas mais pobres. "A única forma de parar o vírus é controlar o mosquito e adotar medidas para reduzir a pobreza", declarou Walter Cotte, diretor da Cruz Vermelha nas Américas. "Temos de agir rápido", disse a diretora da Cruz Vermelha para Saúde, Julie Lyn Hall. 

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