Políticas anti-HIV devem ver usuário de drogas como paciente, diz Cruz Vermelha

Estimativa é de que 16 milhões no mundo usem drogas injetáveis, e 3 milhões tenham vírus

AP,

25 Novembro 2010 | 22h15

A propagação do HIV e da aids entre milhões de pessoas no mundo poderia ter sido reduzida se os usuários de drogas injetáveis fossem tratados como pacientes clínicos, e não como criminosos, afirmou a Federação Internacional da Cruz Vermelha nesta quinta-feira, 25.

 

Veja também:

linkCampanha 'Fique Sabendo' já fez 43,9 mil testes gratuitos de HIV em SP

"Mais de 80% dos governos em todo o planeta estão inclinados a realidades artificiais, impermeáveis à evidência de que enxergar pessoas que consomem drogas injetáveis como criminosos é uma política fracassada, o que contribui para a propagação do HIV'', disse a Cruz Vermelha.

 

Estima-se que 16 milhões de pessoas no mundo usem drogas injetáveis, principalmente porque dão uma sensação mais intensa e rápida que fumar ou cheirar, por exemplo. Segundo a Cruz Vermelha, esse tipo de uso é uma tendência crescente em todos os continentes.

 

A divulgação de um relatório de 24 páginas pela Federação Internacional da Cruz Vermelha - essencialmente para promover uma nova estratégia que interrompa a propagação do vírus entre usuários de drogas injetáveis - ocorre na semana que antecede o Dia Mundial da Aids, lembrado em 1º de dezembro.

 

A federação, que representa as unidades nacionais da Cruz Vermelha em quase todos os países do globo, sugere formas de reduzir o risco de os viciados contraírem o vírus por meio de sangue contaminado transmitido no compartilhamento de agulhas. O texto também aponta que muitos dos usuários estão vendendo o corpo para poder pagar pela droga, o que aumenta muito a probabilidade de propagação do HIV entre um público desavisado.

 

Mais de 3 milhões de pessoas que injetam drogas têm HIV, o que representa quase um décimo dos 33,3 milhões de infectados em todo o mundo. Nos Estados Unidos, cerca de 56 mil pessoas, muitas delas usuárias de drogas injetáveis, são infectadas a cada ano, uma taxa que tem se mantido estável há uma década. Mas muitos dos que estão contaminados não o sabem, e espalham o vírus involuntariamente, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) do país.

 

Durante anos, o CDC recomendou exames de rotina, principalmente entre usuários de drogas intravenosas e outros indivíduos de alto risco. Se as novas infecções são descobertas precocemente, pacientes com HIV podem ser tratados com drogas potentes o suficiente para adiar o aparecimento dos sintomas da aids.

 

O relatório da Cruz Vermelha diz ainda que China, Malásia, Rússia, Ucrânia e Vietnã têm uma "megaepidemia" de drogas injetáveis. Em alguns países, como Rússia, Geórgia e Irã, esses usuários respondem por mais de 60% das infecções por HIV.

 

A Cruz Vermelha considera a crescente taxa de infecção por HIV entre esse grupo uma "emergência de saúde pública" e recomenda aos governos mais prestação de serviços, como terapia de substituição de drogas, seringas limpas e trocas de seringas. Segundo o relatório, estudos demonstram consistentemente que as trocas de seringas podem diminuir as taxas de transmissão em até 42%.

 

"A federação está se concentrando em usuários de drogas injetáveis, pois crescentes evidências mostram que a falta de programas rígidos para alcançar esse grupo põe não só em risco a saúde deles, mas também a segurança do público em geral", afirmou o presidente da entidade, Tadateru Konoe.

 

A Agência de Aids das Nações Unidas, sediada em Genebra, na Suíça, informou no início desta semana que a epidemia global de HIV entre a população em geral tem recuado, com uma diminuição de 20% de novas infecções na última década. Mas o relatório da agência também observou que ainda existem 7 mil novos casos de infecção por dia, o que significa que duas pessoas são contaminadas com o vírus para cada uma que inicia o tratamento.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.