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Por patrocínio, evento veta obesidade infantil

Carta assinada pela presidente do Congresso Mundial de Ciência e Tecnologia diz que debate sobre a propaganda no estímulo à obesidade afugentaria patrocinadores

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Paulo Saldaña e Ocimara Balmant ,

11 Julho 2012 | 22h30

O 16.° Congresso Mundial de Ciência e Tecnologia de Alimentos, que será realizado em agosto pela primeira vez no Brasil, teve um debate sobre obesidade infantil cancelado após a presidente do encontro, Glaucia Pastore, argumentar que o tema afugentaria patrocinadores. A mesa trataria o papel da mídia em relação à obesidade e a polêmica regulamentação da publicidade voltada a crianças.

O Estado teve acesso a uma carta da Associação Latinoamericana de Ciência e Tecnologia de Alimentos (ALLACTA), que também é presidida por Gláucia - professora da Unicamp e referência em alimentação no Brasil - em que pede o cancelamento do tema para a Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimentos (sbCTA). Outros 10 membros assinam. A sbCTA é quem havia proposto a discussão, considerada um dos graves problemas de saúde atual.

Em espanhol, o texto diz que o tema “causaria inconvenientes com potenciais patrocinadores”. “Isso é um absurdo. Mostra como estamos vendidos à indústria e como, em nome desses interesses, deixa-se de discutir um tema tão importante e tão grave no País”, afirma a presidente da sbCTA, Jane Menegaldo, que também é pesquisadora da Embrapa. “Perde-se a chance de fazer de forma séria esse evento, que pela primeira vez será na América Latina.

Outro foco. Apesar de o conteúdo da carta deixar explícito a questão do entrave com patrocinadores, a presidente do congresso, Gláucia Pastore - , nega que tenha havido qualquer interesse em coibir o tema. “A retirada da mesa é muito mais uma questão de adequação científica do que uma questão ética. Eles propuseram sem que o comitê soubesse”, argumenta.

Segundo Gláucia, a alteração foi uma “questão de foco”: “o assunto seria contemplado, mas no âmbito da programação internacional. “Tanto é, que a questão da obesidade está na programação”, afirma.

Na programação do congresso, de fato há uma série de palestras sobre o assunto, no entanto nenhuma delas aborda o papel da publicidade na obesidade infantil. Entre os temas estão, por exemplo, “Uma visão sobre a epidemia global da obesidade” e “Comida tradicional e os modernos parâmetros e marcadores de obesidade”.

Era plural. Quem conduziria a mesa sobre a influência da mídia na obesidade infantil seria o engenheiro de alimentos Luiz Eduardo de Carvalho, professor da Universidade Federal do Rio Janeiro e ex-presidente a Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimentos (sbCTA) - dirigiu a entidade de 1986 a 1991.

“Para que serve um congresso científico? Não é para discutir o que afeta a sociedade?”, questiona. “Acho um despropósito. Eu cheguei a fazer os convites aos debatedores e tomei o cuidado de nem chamar quem poderia ser visto como militante”.

Na lista de convidados para o debate estavam a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Ministério da Saúde, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) e a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA).

A Abia afirma desconhecer a existência da carta e, em nota, afirma que o “o setor de alimentos entende que o tema deve ser debatido nos fóruns de interesse para que se encontre a melhor solução para a sociedade e para a indústria”.

 

Em 2010, a Anvisa publicou uma resolução sobre a oferta e a propaganda de alimentos com o objetivo de "coibir práticas excessivas que levem o público, em especial o público infantil, a padrões de consumo incompatíveis com a saúde", A norma foi suspensa pela justiça três meses depois em resposta a uma ação da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia).

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