Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

‘Precisamos trocar a cultura do vício pela da recuperação’

Americano propõe um acompanhamento pessoal para recuperar as pessoas viciadas em álcool e outras drogas

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

14 Março 2014 | 22h43

Por mais de 20 anos, o americano Ben Bass viveu o drama do alcoolismo. Em 1987, iniciou sua recuperação e seu ativismo pelos direitos dos dependentes químicos. Hoje, é diretor executivo da Recovery Alliance de El Paso, do Texas (EUA), que propõe um modelo de acompanhamento pessoal na recuperação do usuário. No Brasil para um seminário sobre alcoolismo, Bass afirmou ao Estado que não é possível vencer a luta contra as drogas sem tratar a dependência como uma doença crônica e sem acabar com o estigma em torno dos usuários.

Como é o trabalho de vocês?

Somos uma organização totalmente composta por pessoas que estão em recuperação do vício. Nossa ideia é lutar contra o estigma e a discriminação das pessoas em recuperação. Fazemos um serviço de recuperação individualizado, de igual para igual, em que pessoas que estão em recuperação ajudam as outras.

Como funciona esse processo de acompanhamento?

Se você vem e procura ajuda, nós te designamos uma espécie de padrinho. Ele é orientado a te ligar pelo menos uma vez por semana no primeiro ano de recuperação. Temos, acima dele, um supervisor que vai checar se ele está fazendo os contatos.

Vocês já conseguiram medir resultados desse programa?

Em 2008, nossa organização propôs um programa para o governo federal no qual combinaríamos cuidados médicos e esse acompanhamento de igual para igual. Em três anos, atendemos 387 moradores de rua viciados em álcool ou outras drogas e que tinham algum outro distúrbio mental. Conseguimos acompanhar 340 dessas pessoas, das quais 70% seguiam abstêmias após seis meses.

Como fazer as pessoas buscarem tratamento para o vício?

Vejo algumas semelhanças entre o relacionamento familiar de El Paso, que tem uma grande comunidade hispânica, e o Brasil. Em El Paso, vemos muitas mães negarem que seus filhos são viciados. Para as famílias, eu diria para se cuidarem. O alcoolismo é uma doença da família. Por isso incentivamos a todos que estão em recuperação bem-sucedida mostrarem seus rostos e vozes e provar que a recuperação é real. Estou em recuperação há 26 anos. Conheço juízes federais nos Estados Unidos e pessoas muito bem-sucedidas que estão em recuperação.

Muitos no Brasil acham que a solução para a dependência química está na internação...

Posso te dizer por que isso está errado? Desde 1954, a Associação Médica Americana reconhece o alcoolismo como uma doença crônica, como a diabete, por exemplo, que deve ser tratada com intervenções clínicas e mudanças em seu estilo de vida, de hábitos. Durante muito tempo, tratamos o alcoolismo como um braço quebrado, mas não é assim, e é por isso que o Alcoólicos Anônimos é tão bem-sucedido, porque dá uma nova cultura para as pessoas em recuperação. Os médicos são muito bons no que fazem. Mas, quando esse tratamento acaba, é preciso que seja feito um acompanhamento bom o suficiente para substituir a cultura do vício pela cultura da recuperação.

O que o Brasil pode fazer para mudar essa percepção?

Exige organização, exige esforço, não acontece sozinho. Precisamos de pessoas mostrando a real face da recuperação. Queremos representar a recuperação com esses rostos bem-sucedidos e não com uma foto da Cracolândia. A questão da vergonha mata as pessoas.

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