JF DIORIO/AE
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Pressão no trabalho é a 2ª causa de licenças

Estresse e depressão estão entre os problemas psicológicos principais vividos no meio corporativo

Felipe Oda , Jornal da Tarde

29 Março 2011 | 08h14

SÃO PAULO - Transtornos mentais atribuídos ao sofrimento no trabalho são a segunda causa de afastamentos temporários no País provocados por problemas de saúde, segundo um levantamento feito pelo Jornal da Tarde nos dados do Ministério da Previdência Social. A pressão no ambiente corporativo e a jornada sobrecarregada são alguns fatores que contribuem para esse adoecimento.

 

No ranking das principais doenças que afetam os trabalhadores brasileiros, com base nos dados referentes ao biênio 2008-2009, os problemas psicológicos perdem apenas para as lesões osteomusculares, como é o caso da Lesão por Esforço Repetitivo (LER). Depressão e estresse aparecem entre os distúrbios mentais mais comuns do meio corporativo.

 

"Além da pressão e do excesso de trabalho, dificuldade de promoção, falta de autonomia e identificação com a chefia são alguns dos motivos", lista o psiquiatra Duílio Antero de Camargo, médico do trabalho do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC). Diante da importância crescente do tema, Antero vai lançar, em maio, o livro Terapia Ocupacional (leia mais abaixo).

 

No caso da advogada Alaíde Boschilia, de 48 anos, as dificuldades no trabalho se transformaram em sinais físicos. Funcionária de um escritório de advocacia, ela conta que o corpo, além da mente, também sofreu por causa da pressão psicológica. "O ambiente era muito hostil. Meu chefe gritava e tratava todos os funcionários mal", lembra. "Comecei a vomitar todos os dias antes de ir trabalhar, perdi peso, tive furúnculos embaixo dos braços, espinhas e manchas na pele."

 

Alaíde suportou as agressões emocionais por oito meses, até que resolveu procurar um novo emprego. "Estava afastada havia cinco anos do mercado e precisava voltar a trabalhar, mas demorei a perceber que o próprio emprego estava me fazendo mal", diz.

 

Para José Atílio Bombana, coordenador do Programa de Atendimento e Estudos de Somatização, do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os sintomas de Alaíde foram "reações de um organismo estressado". "Submetidos aos ‘estressores’, que também podem ser a violência e o trânsito, cada pessoa tem uma maneira de reagir", diz.

 

Observar com atenção os sinais emitidos pelos corpo quando o emocional não vai bem é uma das recomendações do médico do trabalho Gilberto Archêro Amaral, diretor da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT). "Insônia, cansaço, desinteresse e diminuição do relacionamento com outras pessoas são sinais de sofrimento provocado pelo trabalho."

 

Amaral ressalta, contudo, que "a todo momento o indivíduo sofre agressões", de forma que o trabalho, em algumas situações, pode ser apenas mais uma delas.

 

"Não podemos atribuir só ao trabalho o fato de um indivíduo adoecer. Os transtornos mentais são multifatoriais", explica o médico.

 

Segundo Bombana, a "estrutura interna de cada pessoa" determina a maneira como ela reage ao estresse. "Entre o trabalho e a doença, existem as características individuais que definem como será a reação do indivíduo. Algumas pessoas lidam bem com cobranças e até crescem quando são muito exigidas no trabalho", completa.

 

Sentir-se útil faz bem para a saúde psicológica

 

A pressão é comum no trabalho, afirmam os especialistas ouvidos pela reportagem. Mas qual é o limite entre as exigências da profissão e o abuso? "Cada pessoa tem um nível de tolerância", fala José Atílio Bombana, coordenador do Programa de Atendimento e Estudos de Somatização, do Departamento de Psiquiatria da Unifesp.

 

Gilberto Archêro Amaral, diretor da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), diz que a pressão, em alguns casos, pode ser até benéfica. "Obriga uma resposta do organismo e do indivíduo. Para alguns, pode ser um estresse, mas para outros a pressão pode fazê-los produzir mais e melhor", afirma. "A doença também é uma resposta do organismo sobre a incapacidade de a pessoa reagir à pressão", completa Amaral.

 

Bombana afirma que é importante observar alguns sintomas. "Quando a pessoa passa mais tempo pensando em situações fora do trabalho em pleno expediente é um bom sinal de que alguma coisa não vai bem" (leia mais acima).

 

Para se manter mentalmente saudável no emprego, o especialista da Unifesp ressalta a importância de a pessoa sentir-se útil. "A produtividade é fundamental para que a cabeça da pessoa esteja bem no trabalho."

 

PINGUE-PONGUE

Duílio Antero de Camargo (psiquiatra e médico do trabalho do instituto de psiquiatria do HC): ‘Jeito de reagir a cobranças é individual’

 

Como e quando o trabalho pode prejudicar a saúde?

Depende de três fatores: biológico, social e psicológico. E da forma como cada pessoa reage a situações de estresse e cobranças. Para diagnosticar o distúrbio ocupacional é preciso comprovar o nexo causal: conhecer os motivos que estão adoecendo o indivíduo e ver se podem ser provocados pelo emprego ou por situações externas ao meio corporativo.

 

Quais situações do ambiente corporativo são capazes de provocar transtornos mentais nos funcionários?

Pressão, dificuldade de promoção e relacionamento com colegas de trabalho, falta de autonomia e afinidade com a chefia são algumas das principais situações estressantes. Mas tudo dependerá da maneira como cada indivíduo reage aos estímulos e aos outros fatores, social e biológico. O importante é a empresa diagnosticar o funcionário adoecido para poder ajudá-lo. É melhor afastá-lo por um período do que mantê-lo na atividade com sua capacidade produtiva comprometida.

 

lista PRESTE ATENÇÃO!

Entre os principais sinais dos distúrbios mentais comumente associados ao sofrimento no trabalho, tais como estresse e depressão, estão:

link Desânimo

link Insônia

link Cansaço

link Desinteresse

link Diminuição no relacionamento estabelecido com os colegas de trabalho

link Irritação

link Dores musculares sem outros motivos aparentes

link Dificuldade de concentração nas atividades exigidas pelo emprego

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