Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Procura de vacina contra febre amarela cresce 15 vezes em São Paulo

Dados da Prefeitura mostram que, entre outubro e dezembro, 1,3 milhão se imunizou; nos trimestres anteriores, média era de 88 mil

Fabiana Cambricoli, José Maria Tomazela, Júlia Marques, Paula Felix e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2018 | 03h00

SÃO PAULO E SOROCABA - Em meio ao avanço de casos na Grande São Paulo, a procura pela vacina contra a febre amarela na capital cresceu 15 vezes nos últimos três meses de 2017, em comparação com a média dos outros trimestres do ano. Dados inéditos da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo mostram que, entre outubro e dezembro, 1,3 milhão se vacinou. Nos trimestres anteriores, a média foi de 88 mil. A alta se deu, sobretudo, com a campanha na zona norte, mas também houve aumento de demanda nos postos já existentes de toda a cidade.

+++ Horto, Parque da Cantareira e o Parque Ecológico do Tietê reabrem

Nesta quarta-feira, 10, o governo estadual reabriu o Horto Florestal, o Parque da Cantareira, na zona norte, e o Parque Ecológico do Tietê, na zona leste, fechados há mais de dois meses pela ocorrência de macacos infectados nos locais. Para visitar as unidades, os frequentadores terão de se vacinar contra a doença. Faixas colocadas nos parques informam que a imunização deverá ser feita dez dias antes da visita, mas não haverá cobrança de comprovante de vacinação.

+++ Após mortes, moradores enfrentam filas para vacina em Atibaia

De acordo com o Secretário de Estado do Meio Ambiente, Maurício Brusadin, a população terá de colaborar. “Todas as comunidades ao redor dos parques estão informadas e a cobertura vacinal nos dá a garantia de que a população está consciente. Temos certeza de que as pessoas que não estão vacinadas, ao ver a faixa, não vão entrar.” Ainda há 23 parques municipais fechados como medida preventiva contra o vírus. 

+++ Mais 3 mortes por febre amarela são confirmadas no interior de SP

Secretário de Estado da Saúde, David Uip afirma que os parques foram fechados para que análises fossem realizadas e agora o local não oferece riscos para pessoas imunizadas. “Estamos diante de uma população que está vacinada. Não tem motivo para não reabrir os parques.” Segundo o balanço da Secretaria de Estado da Saúde, foram registrados 29 casos autóctones (de transmissão interna) da doença e 13 óbitos. Há casos suspeitos ainda em análise.

Também nesta quarta, a Prefeitura anunciou que iniciará no dia 3 de fevereiro a vacinação em 15 distritos das zonas leste e sul da cidade. Na mesma data, terá início a campanha em regiões do Estado que ainda não foram afetadas pelo vírus. A meta é vacinar 6,3 milhões de pessoas de 53 municípios até 24 de fevereiro. Segundo a pasta estadual, 7 milhões de paulistas tomaram a vacina no ano passado. Entre 2007 e 2016, 7,6 milhões haviam sido imunizados.

Movimento

Nas primeiras horas de funcionamento do Horto Florestal, o movimento ainda era tímido e formado principalmente por moradores da região. Eles comemoraram a reabertura do espaço que utilizam para atividades físicas e levar crianças para brincar, mas nem todos confiam que só visitantes vacinados frequentarão o local.

O atendente André de Souza, de 43 anos, foi passear no local nesta quarta com a mulher, a frentista Claudia Gomes, de 41, e a filha Giovanna, de 9. Eles se vacinaram no início da campanha no distrito. “Estávamos sentindo falta do parque. A gente que é morador depende desse lugar para o lazer.” Ele e a mulher não acreditam que as pessoas deixarão de visitar o lugar pelo fato de não terem se vacinado. “Não vão respeitar. Não acho que deveriam exigir a carteirinha (de vacinação) na porta. Isso é demais, porque ia formar muita fila”, afirma Claudia.

Interior

Depois da confirmação de duas mortes por febre amarela em Atibaia, moradores lotaram os postos de vacinação contra a doença nesta quarta no município do interior de São Paulo. Na Unidade Básica de Saúde (UBS) Central, as filas dobravam o quarteirão e a espera pela vacina chegava a duas horas. Com outras unidades lotadas, a prefeitura decidiu manter sem interrupção a aplicação da vacina no pronto-atendimento do Jardim Cerejeiras. Nos próximos dias, a unidade continuará funcionando em regime de 24 horas. Desde a manhã até as 17 horas, os 16 postos tinham imunizado mais de 3 mil pessoas. 

Em Jarinu, onde uma mulher de 54 anos morreu após adquirir a febre amarela, os moradores lotaram o Ambulatório Central de Saúde, uma das cinco unidades onde há imunizante disponível. De acordo com a prefeitura, cerca de 20 mil moradores foram vacinados desde o ano passado - a cidade tem 28 mil habitantes.

Na capital paulista, não foi apenas a rede pública que viu a busca por doses aumentar. Segundo o Sírio-Libanês, a procura está em um “volume muito alto”, tanto que foram aplicadas 140 doses neste mês. A maior procura é de famílias. Já a clínica Vacinarte teve o estoque esgotado nesta semana, tanto na Lapa quanto em Perdizes. 

 

Doença mata 6 em Minas, 3 na região metropolitana

Minas Gerais confirmou nesta quarta seis mortes por febre amarela. O balanço da Secretaria de Estado de Saúde considera registros a partir de julho do ano passado. 

Dos sete casos confirmados da doença no período, em apenas um o paciente foi curado. Os registros são de pessoas que não haviam tomado a vacina e com idades entre 33 e 51 anos. 

Entre as mortes registradas em Minas Gerais, três ocorreram em Nova Lima e Brumadinho, municípios da região metropolitana de Belo Horizonte. O Estado ainda investiga dez relatos de infecção pelo vírus da febre amarela. Em 21 municípios, foram encontrados macacos mortos por causa da doença.

O Estado estima que 8 em cada 10 pessoas estejam vacinadas, mas, em 42% dos municípios, a cobertura vacinal ainda não chega a 80%. 

Pontos-chave

Imunização cresceu no fim do ano passado

Doses

A busca por uma dose da vacina contra a febre amarela aumentou 15 vezes nos últimos três meses do ano passado em relação à édia de trimestres anteriores.

Parques

Três parques - dois na zona norte e um na zona leste - foram reabertos após dois meses de interdição. Visitantes têm de estar vacinados.

Ampliação

Populações de regiões do Estado não afetadas pelo vírus também serão vacinadas a partir de fevereiro. A meta é imunizar 6,3 milhões em 53 municípios.

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'Foi um erro não ter tomado a vacina', diz irmão de vítima da febre amarela

Motorista Adilson Tadeu Esteves Cypriano foi passar o Natal na casa da irmã na Serra da Cantareira, no limite entre Mairiporã e Caieiras

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - O motorista Adilson Tadeu Esteves Cypriano, de 48 anos, foi passar o Natal na casa da irmã na Serra da Cantareira, no limite entre Mairiporã e Caieiras, acompanhado das duas filhas de 6 e 8 anos e do pai. O único sem ter sido vacinado contra a febre amarela, Cypriano voltou para São Paulo no dia 26 e dois dias depois começou a sentir sintomas da doença. 

+++ Febre amarela: Mairiporã tem postos de saúde lotados e alertas

“Ele achou que era gripe comum, automedicou-se, descansou e achou que iria passar. No dia 1.º, passou o dia todo praticamente na cama, mas começou a ter dor de barriga e achamos melhor ir ao hospital”, contou o irmão da vítima, Irineu Esteves Cypriano Filho, de 58 anos. Eles foram a um hospital, em Santana, na zona norte, onde se fez o diagnóstico de intoxicação alimentar. 

+++ Vacina fracionada contra febre amarela terá selo diferenciado

Após dois dias sem sentir uma melhora, Cypriano procurou mais uma vez o centro médico, onde fez uma bateria de exames. “Nessa hora, os médicos já suspeitavam de febre amarela, dengue e até leptospirose. Começaram a perguntar onde ele tinha ido nos últimos dias, se esteve em área de enchente ou bebeu direto da latinha algum refrigerante”, contou o irmão. 

+++ Área de recomendação de vacina contra febre amarela será ampliada

Horas depois, os olhos de Cypriano ficaram amarelados e ele foi internado na UTI. Uma biópsia constatou que o fígado do paciente estava muito danificado. Acabou transferido para outro hospital particular, onde morreu nesta terça-feira, 9. 

Cypriano morava na Vila Guilherme, zona norte de São Paulo, a primeira região da cidade com a recomendação para que os moradores tomassem a vacina. “Foi um erro, um vacilo não ter tomado a vacina. Eu e minha irmã (dona da casa na Serra da Cantareira) também não estávamos vacinados, foi mais por negligência do que por falta de informação”, lamentou Irineu. Ele espera que a morte do irmão possa alertar outras pessoas. “Se uma, dez ou cem mil pessoas se vacinarem depois de saberem da nossa perda, ele vai salvar muita gente.”

O Estado procurou a Secretaria Municipal da Saúde, que informou que o caso está em investigação e o laboratório de referência para o diagnóstico da doença é o Instituto Adolfo Lutz. Disse ainda que, desde o início de 2017, houve 16 casos importados de febre amarela silvestre relatados na capital. / COLABOROU PAULA FELIX

 

 

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