Sérgio Castro / Estadão
Sérgio Castro / Estadão

Projeto reconstrói faces e vidas na Ucrânia

Trabalho pioneiro de cirurgiões-dentistas e médicos brasileiros trata fissura labiopalatal e deformidades; Chernobyl pode ter influência

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

19 Junho 2016 | 03h00

Uma equipe de cirurgiões-dentistas e médicos brasileiros executa em Kiev, na Ucrânia, sob patrocínio do Rotary International, um projeto pioneiro de alta tecnologia para tratamento de fissura labiopalatal e deformidades craniofaciais.

Iniciado em agosto de 2013 na Crimeia, antes da invasão russa, em janeiro de 2014, o projeto já fez mais de 200 cirurgias, entre elas a implantação em uma criança de 7 anos de uma mandíbula de titânio fabricada em Itapira (SP), a primeira do mundo totalmente customizada (adaptada ao paciente).

Coordenado pelo ortodontista Saulo Borges, do Rotary Club de Arcos (MG), o projeto Smile Ukraine treina profissionais ucranianos, que têm participado das cirurgias em Kiev sob orientação dos brasileiros. Em julho, sete professores da Universidade Médica Nacional Bogomolets, de Kiev, virão ao Brasil para cursos e treinamento em Belo Horizonte, Lavras, Bauru, São Paulo e Curitiba. 

A proximidade de Kiev, cerca de 120 quilômetros, de Chernobyl levanta a hipótese de que a radiação causada pela explosão da usina nuclear nessa cidade, em 26 de abril de 1986, tenha contribuído para aumentar a incidência de fissuras na região. “Eu não havia pensado nessa possibilidade, mas faz sentido e é preciso pesquisar”, disse o médico Eudes Soares de Sá Nóbrega, cirurgião plástico chefe do Setor de Cirurgia Plástica do Hospital de Reabilitação de Anomalias Crânio-Faciais de Bauru (Centrinho), da Universidade de São Paulo (USP). 

O coordenador do projeto, Saulo Borges, disse que a fissura tem causas genéticas e ambientais – entre elas a exposição a raio X, o que reforça a necessidade de estudos de Chernobyl. ‘É possível que a incidência seja ainda maior na Ucrânia, porque não se contam as crianças (fetos) fissuradas que não chegam a nascer, já que o aborto é permitido para esse caso no país”, dise Borges.

O cirurgião Eudes Nóbrega ressalta também a contribuição da desnutrição para a ocorrência de fissuras e deformidades craniofaciais. “A região de Kiev sofreu muita fome na época do comunismo.” 

Além de Eudes Nóbrega, participam do projeto Sérgio Monteiro Lima Jr. e Fernanda Boos Lima, de Belo Horizonte; Paulo Hemerson de Moraes, residente no Porto, em Portugal; Terumi Okada Ozawa e Gisele da Silva Darben, de Bauru, e Théo Peres Colferai, de São Paulo. Pós-graduando no Departamento de Patologia Oral da Faculdade de Odontologia da USP, onde pesquisa superfície de implante, Théo Colferai é proprietário da Bioconect, fábrica de próteses médicas e dentárias em Itapira, na região de Campinas. 

“O doutor Paulo desenha a prótese e o doutor Théo fabrica”, informa o coordenador do projeto. A dupla já confeccionou a mandíbula implantada na menina de Kiev e se prepara para atender outras três encomendas, que ainda dependem de financiamento. Uma indústria parceira alemã faz a impressão 3D de camadas de titânio na peça desenhada no Brasil. Depois de finalizada em Itapira, é levada para a Ucrânia. 

Os pacientes nada pagam pelo tratamento e cirurgias. O médico Eudes Nóbrega fez, de graça, uma cirurgia de nariz em Kiev. Todos os profissionais são voluntários. Para as despesas de transporte e hospedagem, o projeto recebe apoio de cinco distritos do Rotary e de associações em Minas, Rio, São Paulo e Ucrânia.

Beneficiados. A escolha do Hospital Infantil da Crimeia e, posteriormente, do Hospital Infantil em Kiev, foi feita após levantamento liderado por Saulo Borges. O projeto, que na Crimeia beneficiava cerca de 30 crianças por ano, passou a atender aproximadamente 500, que são operadas em Kiev.

Os cirurgiões bucomaxilofaciais Sérgio Monteiro Lima e Fernanda Boos Lima, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ficam emocionados ao falar da implantação de mandíbula numa menina de 7 anos de idade em Kiev, na Ucrânia. Eles não são rotarianos, mas aceitaram o desafio, quando o coordenador Saulo Borges os convidou, em Belo Horizonte, para se juntar à equipe do projeto Smile Ukraine, sem nenhuma remuneração.

Casados há três anos, Sérgio e Fernanda acharam que estava na hora de retribuir a pessoas necessitadas, mesmo que não fossem brasileiras, o que receberam para sua formação – colégio, faculdade e bolsas de estudo na Alemanha e na Suíça, no caso de Sérgio. Depois de ter feito a cirurgia na menina ucraniana, o casal vem acompanhando o pós-operatório por meio de relatórios enviados por colegas de Kiev.

“Os ucranianos se mostram muito interessados em absorver e aplicar nossa tecnologia, porque dispõem de poucos recursos e ainda precisam evoluir bastante na área”, disse Fernanda. A menina Lilya, operada pela dupla brasileira, recebeu anteriormente uma mandíbula de acrílico em Moscou, mas o tratamento não deu certo. O dentista Paulo Hemerson de Moraes (que desenhou a mandíbula pelo computador) e o implantodontista Theo Peres Colferal (que fabricou a peça banhada de titânio) acompanharam a cirurgia. 

Lágrimas. Dois dias após a operação, Fernanda filmou Lilya comendo com colher um bolo napoleão, aparentemente sem esforço. Ela chorou na hora e mal segura as lágrimas toda vez que projeta a cena para amigos e colegas de profissão. “Lilya nunca havia mastigado nada antes, foi uma maravilha”, disse Fernanda. A mãe da menina, que só fala ucraniano e russo, improvisou um “thank you” para agradecer o que lhe parecia um milagre. Até aí, ninguém lhe havia dado a menor esperança. 

No Brasil.  A incidência de fissura labiopalatal é mais ou menos a mesma no Brasil e na Ucrânia – 1/600 de nascidos vivos. Sexta-feira, Sérgio e Fernanda relataram sua experiência para uma plateia de especialistas em cirurgia, em um seminário em São Paulo.

E o trabalho da equipe brasileira já despertou interesse na Europa. Uma equipe de cirurgiões-dentistas rotarianos franceses foi a Kiev para conhecer o projeto e ver se ele pode ser aplicado em outros países. 

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