Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Provedor da Santa Casa de Misericórdia renuncia ao cargo

Kalil Rocha Abdalla estava de licença desde dezembro do ano passado; novas eleições serão realizadas em 60 dias

Paula Felix e Rafael Italiani, O Estado de S. Paulo

16 Abril 2015 | 18h01

Atualizei às 22h33

SÃO PAULO - Após a Justiça autorizar a quebra de seus sigilos bancário e fiscal, Kalil Rocha Abdalla, de 73 anos, renunciou nesta quinta-feira, 16, ao cargo de provedor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. O fato acontece um ano após a terceira reeleição do advogado. Em 400 anos, é a primeira vez que um provedor da instituição renuncia. A Santa Casa vive uma das maiores crises de sua história, e seus gestores estão na mira do Ministério Público Estadual (MPE). 

No pedido de quebra de sigilo de 22 pessoas físicas e jurídicas ligadas ao centro médico, feito pelo MPE, a promotoria aponta que, entre 2009 e 2014 (gestão de Abdalla), a Santa Casa recebeu R$ 1,8 bilhão do Sistema Único de Saúde (SUS) e de outros recursos públicos do Estado e do governo federal. Além disso, a irmandade teria recebido, segundo o MPE, entre 1,8 e 2,9 vezes mais do que o valor determinado pela tabela do SUS para pacientes de média e alta complexidade. 

Mesmo com o montante recebido de cofres públicos, em 2009 a Santa Casa já tinha comprometidos 56% dos seus recursos. No ano passado, esse valor chegou a 100%, de acordo com o Ministério Público, e o hospital acumulava dívidas superiores a R$ 400 milhões. O MPE também diz que uma auditoria feita a pedido da Secretaria de Estado da Saúde apontou contratações sem levantamento de custos e superfaturamento em compras e serviços.

Além de Abdalla, o MPE quer apurada a movimentação bancária de toda a cúpula da Santa Casa que atuava com o ex-provedor. A Justiça autorizou também a quebra dos sigilos financeiros de Antonio Carlos Forte, ex-superintendente; Hercílio Ramos, ex-tesoureiro; Edison Ferreira da Silva, ex-chefe de gabinete da superintendência; e de Paulino de Almeida Carvalho, ex-diretor financeiro. 

No pedido do MPE, a promotora de Direitos Humanos da área de Saúde Pública, Dora Martin Strilicherk, aponta para indícios de nepotismo dentro da entidade. De acordo com o documento obtido pelo Estado, “a irmandade funcionava, aparentemente, como grande empresa familiar, na qual filhos e cônjuges, mormente dos principais executivos e dirigentes, ‘coincidentemente, trabalhavam na mesma empresa’”. 

O ex-provedor, segundo o MPE, empregou o filho Fernando Arouche. Já Forte, ex-superintendente, deu um cargo para a mulher, Wilma Carvalho Neves Forte, médica e funcionária da Faculdade de Medicina da Santa Casa. O ex-diretor financeiro também empregou a companheira e seus filhos, Fernanda de Almeida Carvalho, que é arquiteta e tem um cargo no departamento de engenharia e obras da irmandade, e o advogado Paulo de Almeida Carvalho. Ambos estariam exercendo seus cargos no hospital. 

O MPE afirma que a mulher do ex-diretor financeiro, Nilza Aparecida de Almeida Carvalho, é fisioterapeuta e ocupava o cargo de diretora do Instituto de Fisioterapia da Santa Casa, além de ser a atual presidente do Centro de Estudo e Pesquisas em Fisioterapia. A Promotoria afirma que havia a “concentração de poder na gestão” do hospital. Os parentes também estão sob investigação.

A assessoria de imprensa da Santa Casa disse que o filho de Abdalla ingressou como estagiário em 2002, antes de o pai ser eleito, e se desligou do hospital em 2012 como analista jurídico. Sobre Wilma Carvalho Neves Forte, a irmandade afirmou que ela é colaboradora “sem vínculo”. A assessoria ainda confirmou que os filhos do ex-diretor financeiro trabalham na instituição, mas que “nenhum” no mesmo local do pai. Sobre o restante das pessoas físicas que tiveram os sigilos quebrados, o hospital disse que quatro permanecem, nenhum em cargo de direção.

Na carta de renúncia, o ex-provedor negou falta de transparência e má administração. Os demais acusados não foram localizados pelo Estado.

Segundo a Santa Casa, o vice-provedor, Ruy Altenfelder, continua interinamente. Em até 60 dias, uma eleição deve ser convocada para substituir Abdalla. “Na história, não conheço nenhum provedor que tenha renunciado”, disse Altenfelder.

Questionado se a renúncia está ligada à quebra de sigilos, o ex-provedor negou. "Absolutamente. Pedi meu afastamento temporário (no ano passado) e a Mesa Administrativa nomeou uma comissão de sindicância para averiguar possíveis irregularidades. Essas não foram encontradas, uma vez que não existiam. "

"Estando inocentado resolvi, para dar tranquilidade à administração da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, e cansado das falsas acusações, optei por renunciar ao cargo de provedor, para o qual fora eleito há um ano."

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