GABRIELA BILO/ ESTADAO
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‘Quando a vi, segurei o choro’, diz pai de bebê com microcefalia

Henrique Santana, que no início se negava a carregar a filha, fala da rotina com Ewellyn Vitória, diagnosticada com a má-formação

Felipe Resk, Enviado especial

07 Fevereiro 2016 | 05h00

RECIFE - Ewellyn Vitória nasceu no dia 17 de novembro, após uma gestação acompanhada com muita ansiedade pelo pernambucano Henrique Santana, de 29 anos. Para a família, era a primeira menina: um sonho antigo do pai que, desempregado e com estudos interrompidos no ensino fundamental, precisa cuidar de outros três filhos, o mais novo de um ano e dois meses. 

Durante a gravidez, tudo ocorreu bem. Mas, na maternidade, o médico obstetra seria responsável por informá-lo que a criança sofria de uma má-formação no cérebro.

Antes do surto de microcefalia, que só em Pernambuco atingiu pelo menos 153 crianças a partir de agosto de 2015, segundo último balanço de casos confirmados pelo governo estadual, Santana nunca havia ouvido falar da doença. “Eu nem sabia que isso existia”, diz. Os primeiros dias com a filha foram difíceis. A mãe, Rafaela Maria, de 20 anos, cuidava da criança. Ele se negava até a carregá-la.

“A mãe me perguntou se eu queria pegar nossa filha no colo, eu disse que não. Fiquei desconsolado. Para mim, era uma coisa estranha: a cabeça pequena, o corpo grande. Eu queria uma filha perfeita. Quando a vi pela primeira vez, só consegui baixar a cabeça e segurar o choro”, relata o pai de Ewellyn Vitória. “Mas, graças a Deus, com o tempo, fui me consolando.”

Quase três meses depois, a relação com a filha mudou bastante. Na espera por uma consulta, anteontem, Santana não tirava a menina dos braços. Exibia a criança de lá para cá no saguão de entrada do ambulatório do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, no Recife, onde é atendida a maioria dos pacientes com microcefalia de Pernambuco. Uma foto da criança estampa o fundo de tela do celular de Santana.

Rotina. Ewellyn nasceu com 30 centímetros de perímetro encefálico e precisa encarar uma rotina de consultas para estimular o desenvolvimento do cérebro. “Sobra pele aqui na parte de trás da cabeça, tá vendo?”, mostra o pai, que age naturalmente sobre a condição da filha e a acompanha em todos os procedimentos médicos. “Ela não tem culpa de ter nascido assim”, afirma. “Seria muito mais difícil encarar essa situação sem ele”, diz Rafaela, mãe da criança.

Hoje, duas coisas o incomodam. A primeira é o choro da filha. “Ela quase não consegue dormir de tanto chorar. E o pior é que ninguém sabe o que ela sente”, conta. A outra, a falta de dinheiro. “Eu moro em Paulista (Grande Recife), com a minha sogra, mas não tenho como pagar o ônibus para vir ao hospital. Acabo pegando emprestado com algum vizinho.”

A dedicação à filha ele diz ter herdado da mãe, que o criou sem ajuda. Fruto de uma relação casual, Santana só conheceu o pai aos 25 anos.

Médicos relatam que cada vez mais mães e crianças com microcefalia estão sendo abandonadas pelos pais por causa da doença, como mostrou o Estado na quinta-feira. Segundo Santana, apesar de a má-formação da filha ter feito com que ele inicialmente a estranhasse, nunca pensou em deixá-la. 

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