Quanto pior, melhor

Estamos tão desacostumados com o preconceito que a sensação é pior do que antes

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2017 | 03h00

Já deve ter acontecido com você de estar voltando para casa, divagando enquanto fazia seu caminho habitual, até que de repente chega ao destino sem se dar conta. Você tem a sensação de que entrou no piloto automático, como se tivesse desligado. É mais ou menos isso mesmo o que acontece: quando as coisas são rotineiras, habituais, simplesmente paramos de prestar atenção a elas, poupando energia cerebral para os imprevistos que surjam subitamente. 

São as variações que chamam atenção, não a mesmice. Entre outras coisas, é por isso que o tempo parece passar cada vez mais rápido: conforme envelhecemos, acumulamos experiência, o que significa menos novidade pela frente. Assim como no caminho de casa, atravessamos os dias do ano com o cérebro em stand by e nos assustamos quando, de repente, nos vemos novamente diante das árvores de Natal nas vitrines.

Socialmente parece que isso também acontece. Quando algo é tão frequente que parece fazer parte da natureza, praticamente não nos damos conta daquilo. Conforme se torna mais raro, mais passa a nos chamar a atenção. Vale para as coisas boas, que valorizamos apenas quando escasseiam, mas vale também para as coisas ruins, que parecem piores quando se tornam eventuais. 

O filósofo vitoriano Herbert Spencer apontou tal contradição no ensaio From Freedom to Bondage (Da Liberdade à Escravidão), de 1891, dizendo que “quanto mais as coisas melhoram, mais altas se tornam as exclamações sobre como são ruins”.

Muito se falou das tentativas de suicídio que aconteceram na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) recentemente. O caso serviu de alerta não só na USP, mas em diversas universidades que estão prestando mais atenção à saúde mental dos alunos, como revelou reportagem do Estado no domingo passado. O que pouco se comenta, contudo, é que há poucas décadas havia uma frequência tão alta de suicídios que, reza a lenda, seria possível organizar um bolão, apostando quando (ou quem) seria o próximo. 

No acervo do Estado não encontrei notícias sobre isso. Talvez exatamente por se tornarem mais raras – felizmente – é que elas passaram a ganhar as manchetes. O que não significa que não seja um problema: ao contrário, a questão é séria e merece que realmente concentremos esforços para cuidar da saúde mental dos alunos (como de resto, da população inteira). E pior nos parecerá um suicídio quanto menos as pessoas se matarem.

Espero ansiosamente pelo fenômeno inverso com relação à orientação sexual. Parece-me inevitável que, quanto mais intolerante, repressivo e hostil aos homossexuais for o contexto em que eles estão, menos eles assumem sua orientação sexual e menor o número dos que encontram meios de vivê-la de forma saudável. Nesse ambiente, em que é raro que se admita um relacionamento com alguém do mesmo sexo, quando isso ocorre chama mais a atenção. Conforme a sociedade aumenta sua tolerância, contudo, mais os homossexuais sentem-se seguros e livres, sem necessidade de se esconder, e mais comum vai se tornando ver casais homoafetivos publicamente assumidos. Até que isso se torna tão natural que deixa de ser um assunto – é apenas mais um elemento de uma paisagem conhecida, que não desperta curiosidade.

Corolário desse cenário, contudo, é que, quanto mais formos tolerantes, mais intolerável se tornará a intolerância. A homossexualidade se torna tão comum que nem a notamos, mas o preconceito se torna tão raro que não mais o admitimos. Quando isso acontece, o que antes era considerado uma piada, passa a ser ofensivo. E o que era apenas ofensivo se torna um crime. A geração que passa por essa transição reclama de como o mundo ficou chato. Mas a geração seguinte nem cogita um modo diferente de lidar com a questão. Por mais que seja incômodo, o politicamente correto é sinal de que as coisas progrediram. 

Não acredito, portanto, que estejamos vivendo um retrocesso conservador. Talvez seja exatamente o contrário – estamos ficando tão desacostumados com atitudes preconceituosas que, quando elas ocorrem, saltam aos olhos e provocam uma sensação pior do que antes. Mas nesse caso, paradoxalmente, quanto pior, melhor.

* É PSIQUIATRA

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