Reuters
Reuters

Quase metade das famílias diz ‘não’ à doação de órgãos; 34,5 mil estão na fila

Em 2016, foram 2.854 doações, mas 2.013 pessoas na espera morreram - 82 crianças. Recusas envolvem questões culturais e falta de informação, mas especialistas ainda se assustam com frases como ‘Eu não tenho nada ver com os filhos de outras mães’

Clarissa Thomé e Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo

11 Março 2017 | 03h00

“Eu não tenho nada a ver com os filhos das outras mães.” A recusa veemente de uma mulher em doar os órgãos da filha foi um dos momentos que mais marcaram os 21 anos de carreira de Edvaldo Leal de Moraes, vice-coordenador da Organização de Procura de Órgãos (OPO) do Hospital de Clínicas de São Paulo. Mesmo em um País em que a fila de espera por um órgão chega a cinco anos, o relato não é um caso isolado. Quase metade das famílias ainda rejeita a doação de órgãos no País.

Entre as 34.543 pessoas que esperavam um transplante no País em dezembro, 21.264 precisam de rim, 10.293 de córnea, 1.331 de fígado, 539 de pâncreas e rim, 282 de coração, 172 de pulmão e 31 de pâncreas. Em 2016, 2.013 pessoas que estavam na fila por um órgão, morreram. Dessas, 82 eram crianças. No ano passado, as centrais estaduais de transplantes identificaram 10.158 pessoas que tiveram morte encefálica e poderiam ser doadoras. De 5.939 famílias consultadas, 2.571 (ou 43%) não deram a autorização necessária. 

Os dados foram compilados pela Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), com base nas informações das centrais estaduais de transplantes, e divulgados anteontem pelo Ministério da Saúde. “O índice de recusa é bem alto. A Espanha é país líder em transplante e lá a recusa das famílias é de menos de 20%”, afirma Roberto Manfro, presidente da ABTO. Houve pequeno aumento no número de doadores em relação a 2015 – de 2.854 para 2.981.

Nos Estados do Norte, estão os maiores índices de rejeição à doação. No Acre, chega a 81%; Rondônia registrou 76% e Tocantins, 75%. “O grande empecilho é a falta de conhecimento de saber que a morte encefálica é uma situação de irreversibilidade absoluta”, afirma Manfro. Para atestar a morte encefálica, são necessários avaliação de especialista (neurologista ou neurocirurgião) e exame complementar que ateste que o cérebro não tem atividade elétrica (eletroencefalograma) ou que não há mais circulação de sangue no cérebro (angiotomografia, angiografia, angiorressonância e cintilografia do cérebro).

Nesta semana, a gerente médica da unidade cardiointensiva do Hospital CopaStar do Rio, Jaqueline Miranda, acompanhou um caso de negativa de uma família. “Era um homem grande, salvaria quatro ou cinco vidas. A gente entende a reação das famílias nesse momento de tanta dor. Não dá para colocar nelas a culpa”, afirmou. “É impactante para o entrevistador ouvir isso (a recusa). A gente se sente impotente, incompetente”, relata Moraes. Ele estuda desde 2005 os motivos pelos quais ainda há tanta recusa na doação de órgãos em casos de morte encefálica e a resposta é complexa, pois envolve aspectos culturais e a falta de informação. “Ainda há muito a crença de que ocorrerá um ‘milagre’, mesmo em pessoas que até então não tinham manifestado nenhum tipo de ligação religiosa”, comenta. 

Segundo Moraes, mais do que familiares de pacientes, há muitos profissionais de saúde que também não compreendem ou não aceitam um diagnóstico de morte encefálica. É a mesma análise do coordenador médico do núcleo de captação de órgãos do Hospital Israelita Albert Einstein, José Eduardo Afonso Junior. Mais do que isso, Moraes afirma ter presenciado muitos casos de pessoas que rechaçavam a doação por desacreditar no Sistema Único de Saúde, chegando a cogitar a hipótese de que poderiam ter o tratamento adiado para que seus órgãos fossem retirados.

Campanhas. José Ottaiano, vice-presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, lembra que a adesão à doação de órgão é maior quando há campanhas nacionais, um caso de maior comoção, ou até quando o tema é abordado em filmes ou novelas. “A doação é uma coisa conjuntural. A divulgação pela imprensa e em novelas realmente facilita”, afirmou. Em 2014, na novela Em Família, da Rede Globo, o personagem Cadu, interpretado por Reynaldo Gianecchini, passou por transplante de coração. Em 2013, houve 271 transplantes do órgão. No ano da novela, o número subiu para 311. 

Para Manfro, uma atitude eficiente para quem quer ser doador é avisar à família. “Ela geralmente respeitamesse desejo.”

Profissionais têm de ser capacitados

O coordenador médico do núcleo de captação de órgãos do Hospital Israelita Albert Einstein, José Eduardo Afonso Junior, observa que uma das possíveis explicações para a rejeição à doação de órgãos é uma falta de preparo profissional. Para reverter isso, ele aponta investimentos em classificação, como as pós-graduações em Captação de Órgãos que o Ministério da Saúde realiza em parceria com alguns hospitais, como o Einstein. Durante as aulas, os profissionais participam de simulações de todo o processo, desde o diagnóstico até as conversas com a família e orientações sobre armazenamento dos órgãos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

11 Março 2017 | 03h00

Há 45 dias, o coração de Fabiana Ebani, de 34 anos, bate fora do peito. Depois de seis paradas cardíacas, ela foi ligada a um órgão artificial que bombeia o sangue em seu organismo. 

Enfermeira, casada e mãe de um menino de 8 anos, Fabiana teve uma infecção de garganta e sinusite fortes um ano atrás. Pouco depois, passou a sentir falta de ar. Chegou a pensar que sofria de um problema digestivo. Logo, o fôlego não chegava para que realizasse tarefas simples, como brincar com o filho, Kauê, escovar dentes ou tomar banho.

Foi então que recebeu o diagnóstico de miocardiopatia dilatada, doença em que o coração passa a ter dificuldade de bombear o sangue, por causa da ampliação do ventrículo esquerdo. A cardiologista Jaqueline Miranda, gerente médica da unidade cardiointensiva do Hospital CopaStar, onde Fabiane está internada há cinco meses, explica que a doença costuma ocorrer após enfarte e pode ter origem genética, mas também pode surgir depois de uma infecção viral.

Saudável e ativa, do tipo que frequenta academia e tem foto de voo de parapente em seu perfil na rede social, ela nunca teve nenhum problema cardíaco. “De repente, não aguentava dar dois passos em casa sem ajuda”, conta Fabiana. No fim do ano passado, acabou internada.

No hospital, Fabiana se recuperou de uma pneumonia e foi operada para tratar uma trombose que quase a fez perder a perna esquerda. Em 24 de janeiro, sofreu seis paradas cardíacas consecutivas. “Agradeço a Deus pelas seis oportunidades de voltar. Acho que Ele quis que eu tivesse mais uma chance.”

“O coração de uma pessoa de 70 quilos bombeia 4 litros de sangue por minuto. O de Fabiana bombeava 800 ml”, disse Jaqueline. Depois, o ventrículo esquerdo parou de funcionar. Foi preciso então fazer uma cirurgia de emergência para ligá-la a um equipamento que bombeia o sangue.

“Há muito pouco tempo, não teríamos como manter essa paciente viva. O equipamento funciona com a mesma tecnologia do trem-bala, por levitação magnética. Sem atrito, não há aquecimento do sangue. Se o sangue aquece, há quebra de hemácias e plaquetas e o paciente pode ter uma hemorragia”, afirma a médica.

Hoje, Fabiana é a única no Brasil ligada ao equipamento. O fabricante prevê que o paciente permaneça um mês no coração artificial - para evitar infecção. “Estamos pela conta do chá, chegando ao limite”, afirma Jaqueline. 

Luta. Enquanto espera, Fabiana se angustia com a distância do filho. O menino, que está em Macaé, no Norte Fluminense, com as tias, vê a mãe aos fins de semana e, para matar a saudade, telefona várias vezes por dia.

A enfermeira começou a fazer terapia na semana passada, por causa de crises de ansiedade. “Minha luta é pelo meu filho. Não é a gente que escolhe, mas quero continuar do lado dele”, diz, emocionada. 

Mais conteúdo sobre:
Fabiana Deus Jaqueline Brasil Macaé

Encontrou algum erro? Entre em contato

‘A gente se olhou e sabia o que fazer’, diz mãe que decidiu doar órgãos do filho

Jovem de 23 anos sofreu acidente de carro; Valéria Melges colabora em campanhas pró-doação

Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo

11 Março 2017 | 03h00

Três anos após decidir doar os órgãos do filho, Valéria Melges transformou a perda em ativismo. Hoje, ela colabora nas campanhas de conscientização da ABTO, gravando depoimentos, concedendo relatos e até fazendo panfletagem. “Uma vez, uma adolescente se aproximou de mim depois de uma palestra, me agradeceu e abraçou. Ela queria me agradecer por ser mãe de um doador”, relata.

Aos 23 anos, Luis Fernando, filho de Valéria, teve um traumatismo craniano após sofrer um acidente de carro e ficou 26 dias internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. “Eu tinha certeza da gravidade, mas também esperança de que o quadro fosse mudar até o último minuto. Ele estava perfeito, com o corpo perfeito, não tinha nenhuma lesão aparente, apenas o trauma craniano”, relembra a mãe.

Valéria afirma que doar os órgãos do filho foi uma decisão que ocorreu naturalmente em meio ao “momento mais difícil” de sua vida. “O meu marido é neurocirurgião, já tinha percebido o que estava acontecendo. Quando houve a morte encefálica, a gente apenas se olhou e sabia o que fazer.”

Sem receio. De acordo com ela, até por costumar doar sangue, a família já estava ciente de que essa decisão viria, se necessário. “Tem pessoas que tem receio em tocar nesse assunto com a gente. Mas, pelo contrário, a doação trouxe uma alegria, é um conforto saber que pessoas vão viver por causa do meu filho.”

Mais conteúdo sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.