Redução de danos é alternativa no combate às drogas

ONG de Sorocaba, no interior de São Paulo, realiza método de trabalho de aconselhamento aos usuários nas ruas

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

04 Junho 2014 | 14h48

SOROCABA - O relógio marca 19 horas e a noite é fria em Sorocaba, interior de São Paulo. Começa a aglomeração de moradores de rua em frente à catedral da cidade, no centro, local onde são distribuídos sanduíches diariamente para a população carente. O redutor de danos Caetano de Campos Fontão, psicólogo de 25 anos, prepara sua mochila e se dirige ao espaço para ganhar confiança dessas pessoas. Ele dá expediente na ONG Pode Crer, vinculada à Secretaria de Saúde (SES), que realiza trabalho de redução de danos aos moradores de rua em estado de vulnerabilidade social.

Nos bolsos de Fontão, dezenas de preservativos e um cartão da ONG. Ele tem a missão de abordar os moradores de rua, usuários de droga ou não, e apenas conversar. Oferece a camisinha para iniciar uma conversa e depois, se necessário, leva conselhos para que não sofram os pesados efeitos do crack, mesmo que não deixem de usá-lo. "É uma alternativa ao combate. Nosso objetivo não é a abstinência total, mas pensamos que a pessoa pode fazer uso da droga de forma mais segura. Ela pode até usar, mas não precisa comprometer todas as esferas da vida", explica o psicólogo.

A aproximação é lenta e gradual, assim como conquistar a amizade de um desconhecido. "A gente se aproxima pelo diálogo e pelo respeito. Não somos da polícia ou da igreja. Não estamos lá para tirar a pessoa das drogas, só queremos oferecer algo que foi negado a elas", diz Fontão. Para ele, como as pessoas não têm companhia, o simples diálogo facilita o vínculo. O redutor de danos aconselha, por exemplo, a deixar de usar latas para consumir o crack, substituindo o recipiente pelo cachimbo.

A maioria dos moradores parece empolgada com a presença da reportagem e de Fontão, que está acompanhado de mais um redutor de danos da ONG, Otávio Machado. Só dois deles preferem se esconder - estão fazendo uso de maconha. E começam a contar a vida das ruas. Um deles pede para ser filmado cantando uma música de funk (veja vídeo abaixo). Outro garante ter sido um famoso jogador de futebol, embora não revele o nome nem a história - ele diz ter abandonado a vida "de conforto" após a morte do pai, quando se tornou usuário, e recusa contar o episódio.

O recomeço. Os diálogos terminam sempre com a entrega de um pequeno cartão com o endereço da ONG. Lá, uma equipe de sete pessoas oferece oito camas para que alguns possam passar a noite, além de promover atividades durante o dia. O serviço é parcialmente custeado pela prefeitura de Sorocaba por meio do Programa Municipal de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST/Aids). De lá, os usuários podem ser encaminhados aos serviços competentes do governo municipal para realizar exames e obter documentos. No município, moradores de rua contam apenas com um albergue, o Serviço de Obras Sociais (SOS), que recebe cerca de 45 pessoas diariamente. 

Em um imóvel alugado, com quintal, cozinha, dois quartos e um escritório, a Pode Crer recebe qualquer morador de rua que quiser um espaço para dormir e se alimentar. Lá, eles têm aconselhamento de psicólogos, realizam atividades artesanais, participam de oficinas artísticas e são encaminhados a providenciar documentos como RG e CPF. Algumas marcas no local mostram que nem todos conseguem fazer bom uso do serviço - uma das portas estava com o trinco estourado, sinal de um roubo que ocorrera algumas semanas antes da entrevista, por ex-frequentadores do espaço.

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'Minha mãe sempre me aconselhou a não usar, mas era viciada', conta rapaz que experimentou cocaína aos 12 anos

'Estado' conversou com alguns dos moradores da ONG, que relataram os motivos que os levaram ao vício; dois deles, recuperados, passaram a integrar a equipe da entidade

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

04 Junho 2014 | 15h05

SOROCABA - Sem usar drogas há dois meses, Ricardo (nome fictício) teve uma vida de reviravoltas. Viveu na Fundação Casa por sete anos e não gosta de relembrar o que o levou a ser detido. A mãe, usuária de maconha, cocaína e heroína, foi morta a tiros na prisão por dívida de droga. "Minha mãe sempre me aconselhou a não usar, mas era viciada. Já vi ela usando as três drogas ao mesmo tempo", relembra o homem, de 32 anos. Ricardo experimentou a cocaína aos 12 anos e não parou mais. Só não testou o crack. "Perdi muitas pessoas por causa do crack e acabei pegando nojo, vontade de vomitar."

Na Fundação Casa, conta que teve acesso fácil a drogas e revólveres. Com 16 anos, o jovem trabalhava e recebia uma pequena quantia, que, depois, era trocada por cocaína. "Eu trabalhava numa horta, recebia dinheiro e podia comprar o que quisesse", lembra. Aos 18, quando deixou o cárcere, teve idas e vindas no mercado de trabalho e eventualmente retornava às drogas e à vida nas ruas. Passou a frequentar a ONG no final de 2013 e hoje ajuda nas tarefas domésticas, como fazer compras para a casa.

Já Eduardo (nome fictício) teve as ruas como lar e as drogas como refúgio psicológico depois de fugir de casa. Conta que seu padrasto estuprava sua irmã em sua frente e a mãe não acreditava em seus relatos. "Vi muitas cenas, meu padrasto abusava das minhas irmãs. Fazia coisas inaceitáveis." Naquela época, o jovem já era usuário de maconha e já participava de um esquema de tráfico de drogas na cidade. Seis meses depois, passou a usar cocaína.

"É bem complicado crescer em uma família assim. Minha mãe tem problema com álcool, e meus oito irmãos são todos usuários de droga", relata.

O crack só viria mais tarde, aos 16 anos. Ironicamente, a droga surgiu quando Eduardo tentava evitá-las. Viajou a Campinas, onde trabalharia com construção civil, e lá foi apresentado à pedra por um traficante. "Chegou um momento em que tive curiosidade de ver, saber qual é a sensação, a brisa", lembra. "Eu ganhava aqui e já gastava ali. Vendia uma droga e gastava com outra, era só ilusão. Gastei R$ 1,5 mil do meu 13º salário e o limite do meu cartão nessa droga", lamenta. 

O jovem só deixaria a cidade quando, em um trágico acidente, viu um amigo ser atropelado na Rodovia Anhanguera. Eles voltavam de uma festa, ambos sob o efeito da cocaína, quando o rapaz tentou atravessar a via correndo e sofreu o acidente. "O baque foi tão grande que não consigo lembrar muito disso. Comecei a usar mais drogas ainda, mas elas não faziam mais efeito. Não havia droga que resolvesse esse trauma." Foi quando pediu que o chefe o trouxesse a Sorocaba, para voltar a morar com a mãe. Só conseguiu abandonar o vício há um ano e, hoje, trabalha na reeducação e abordagem aos jovens das periferias. Para ele, que vivenciou o sofrimento desta parcela da população, a aproximação tornou-se comum. 

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Para psicóloga da ONG Pode Crer, problema não é a droga, mas relação que se estabelece com ela

Presidente da organização defende abordagem pelo diálogo e compreensão

Entrevista com

Marta Meirelles

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

04 Junho 2014 | 15h05

Qual é o diferencial da redução de danos?

Nunca chegamos com o discurso de que a pessoa precisa parar de usar droga. Dentro da redução de danos, não consideramos que o problema é a droga, mas a relação que se estabelece com ela. Na praça você tem polícia, não come, toma doses absurda de álcool - tem um risco muito maior do que se for à praia e tomar vodca com amigos. A substância é a mesma, mas a relação que se estabelece é outra. Como eles são muito oprimidos, acabam sendo muito opressores quando podem.

E como é a evolução das pessoas que são acompanhadas?

Na medida em que as pessoas vão se desvinculando ao reduto na rua, em algum momento quer fazer teste de HIV, tomar banho, conversar com psicóloga, jantar, até o momento que achar que quer parar. As pessoas fazem atividades na ONG, refletem, acabam substituindo o crack por maconha. Até o momento em que a droga passa a não ser mais o lugar central da pessoa. O crack e o álcool são os mais comuns.

Qual a relação da ONG com serviços tradicionais como o Centro de Atendimento Psicossocial (Caps)?

Essas pessoas não aderem ao serviço tradicional, o Caps, por exemplo. Mas nós trabalhamos totalmente ligados à saúde, à assistência social, ao trabalho e às questões jurídicas. Eles não vão ao posto de saúde porque estão sujos e não são bem atendidos. Nós não trabalhamos com dependência química, mas com a exclusão social. O projeto é individualizado. Eles sabem que podem contar o que quiserem pra gente. Participam de atividades, descobre-se talentos.

E como a casa funciona?

O trabalho na rua ocorre duas vezes por semana. A casa de passagem das 20 às 8 horas começou a funcionar em fevereiro. A pessoa que quer sair da rua faz um projeto de vida com educadores e ficam até seis meses na casa. Ajudamos a pessoa a alugar um quarto, administrar o dinheiro, para que, gradativamente, saia da rua e resolva a própria vida. Há dias com 25 pessoas na casa e 8 vagas para dormir.

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