Filipe Araújo/AE
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Revisão de estudos aponta excesso de uso de remédio para hipertensão leve

Drogas não reduziram ataques cardíacos ou acidentes vasculares cerebrais em pessoas com pressão arterial de menos de 16 por 10, segundo ONG que revisou dados de 9 mil pacientes; de 20% a 30% das pessoas seriam diagnosticadas erroneamente

Fernanda Bassette,

16 Agosto 2012 | 22h30

Uma revisão de estudos realizada por um painel de especialistas independentes da ONG Cochrane Collaboration aponta que pacientes diagnosticados com hipertensão arterial leve estão sendo medicados em excesso e essas drogas não reduziram ataques cardíacos ou acidentes vasculares cerebrais (AVC).

A hipertensão é um dos principais fatores de risco para doenças cardíacas e cerebrovasculares. Juntas, elas são a maior causa de morte no País e no mudo. Estima-se que 35% dos brasileiros adultos sejam hipertensos (a maioria na forma leve) e apenas 20% deles estejam com a doença controlada.

Segundo dados do Ministério da Saúde, 324.092 pessoas morreram em 2010 em decorrência de doenças do aparelho circulatório no Brasil: 79.297, por exemplo, morreram de enfarte e 99.159 de doenças cerebrovasculares, incluindo o AVC.

Os revisores da Cochrane analisaram dados de testes clínicos envolvendo 9 mil pacientes em tratamento de hipertensão leve. A hipertensão leve diz respeito a casos em que a medida da pressão sistólica é de no máximo 159 mmHg e a pressão diastólica, de 99 mmHg. Isso equivale a dizer que o doente com pressão arterial menor que 16 por 10 é considerado um hipertenso leve.

A pesquisa analisou os resultados do tratamento com remédio e os comparou com os de placebo ou nenhum tratamento. A constatação é de que não houve nenhum benefício evidente no grupo de pacientes que tomou remédios. Para os revisores, os resultados demonstram que qualquer benefício, se existir, provavelmente será pequeno.

Excesso. Uma das hipóteses para explicar o excesso de uso de medicação é a chamada “síndrome da pré-doença” ou “pré-hipertensão”. Trata-se de um diagnóstico dado ao paciente que tem fatores de risco e apresenta alguma alteração em determinado exame, mas não necessariamente está doente. Assim, pessoas com hipertensão leve são tratadas da mesma forma que pacientes com casos graves.

“Por muito tempo só era medicado o doente que sofria um evento cardíaco. Mas hoje há inúmeras opções de medicamentos considerados preventivos que, em geral, são prescritos como primeira opção ao paciente que poderia reduzir a hipertensão largando o cigarro, perdendo o peso, reduzindo o sal da alimentação ”, avalia Marcelo Ferraz Sampaio, do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.

Outro fator que pode explicar o excesso de diagnóstico é a chamada “síndrome do jaleco branco”, caracterizada pelo aumento da pressão arterial quando o paciente está na frente do médico.

Segundo o cardiologista Weimar Sebba Barroso, presidente do Departamento de Hipertensão da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), de 20% a 30% dos pacientes diagnosticados com hipertensão leve não estão doentes – a alteração aconteceu no consultório, ao acaso.

“A maior dificuldade é fazer um diagnóstico correto da hipertensão leve, já que a medida está sujeita a variações de fatores externos, como a ansiedade. Não dá para medicar o paciente com base num único exame clínico”, diz Barroso. Para ele, num mundo ideal, o correto seria fazer um monitoramento da pressão do paciente por 24 horas, por meio de um aparelho portátil que mede os valores cerca de cem vezes.

“Mas a gente sabe que isso é inviável em saúde pública, por isso os médicos precisam pedir outros exames (como teste de esteira) e medir a pressão do paciente em várias oportunidades antes de dar o diagnóstico”, diz.

“Estima-se que 80% dos pacientes que morrem por conta do AVC e 50% dos que morrem de enfarte são hipertensos. Temos de ter o cuidado de não passar a informação equivocada de que a hipertensão leve não precisa ser tratada”, alerta Barroso.

Sampaio reforça que o uso da medicação é necessário se o paciente realmente for hipertenso leve e tiver antecedentes na família ou outros fatores de risco associados. “O importante é escolher o remédio adequado.”

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