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Rubéola foi abolida das Américas, anunciam autoridades de saúde

'Embora tenha levado 15 anos, a batalha valeu a pena', diz Carissa Etienne, diretora da Organização Pan-Americana de Saúde; no surto de 64-65 nos EUA, 11 mil fetos foram abortados ou morreram

Donald G. McNeil Jr., The New York Times

30 Abril 2015 | 23h58

A rubéola, que ataca os fetos com suas terríveis consequências, foi finalmente eliminada das Américas, anunciou nesta quarta-feira, 29, uma comissão de especialistas criada pelas autoridades mundiais da saúde.

A doença, também conhecida como "sarampo alemão", costumava atacar milhões de pessoas no hemisfério ocidental. No surto ocorrido em 1964-65 nos Estados Unidos, 11 mil fetos foram abortados, morreram no ventre materno ou foram abortados pelos médicos, e 20 mil crianças nasceram com problemas.

"Embora tenha levado cerca de 15 anos, a batalha contra a rubéola valeu a pena", afirmou Carissa F. Etienne, diretora da Organização Pan-americana de Saúde, que fez o anúncio com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, a Unicef e a Fundação das Nações Unidas. "Agora, com a rubéola controlada, precisamos arregaçar as mangas e concluir o trabalho eliminando também o sarampo."

As Américas são a primeira região da Organização Mundial da Saúde a acabar com a rubéola. A região europeia - que inclui Europa Oriental, Rússia e Ásia Central - deverá seguir o seu exemplo.

Algumas regiões ainda não estão devidamente adiantadas a ponto de estabelecerem prazos; portanto, a doença não poderá ser eliminada no mundo inteiro antes de 2020, segundo Susan E. Reef, que chefiou a equipe da rubéola na divisão global de imunização dos CDC.

Em todo o mundo, cerca de 120 mil crianças nascem anualmente com graves problemas atribuídos à rubéola.

Duas outras doenças já foram eliminadas nas Américas: a varíola, em 1971, e a pólio em 1994. A varíola atualmente foi eliminada de todo o globo. A pólio praticamente também, embora continuasse persistente durante décadas - quase todos os casos remanescentes originam-se no Paquistão.

Enquanto a rubéola em geral produz apenas uma leve irritação da pele e febre em crianças e adultos, é devastadora para os fetos nos três primeiros meses da gravidez; muitos nascem surdos, cegos por causa da catarata e com graves danos cerebrais permanentes.

O último caso endêmico nas Américas foi confirmado na Argentina em 2009.

Diagnóstico difícil. Levou mais seis anos para que a doença fosse considerada eliminada, porque é mais difícil detectar os seus sintomas do que, por exemplo, os da pólio, que causa paralisia, ou a varíola ou o sarampo, que provocam erupções intensas facilmente diagnosticáveis.

As autoridades de saúde pública tiveram de analisar 165 milhões de registros e fazer 1,3 milhão verificações para saber se alguma comunidade registrava casos de rubéola. Todos os casos recentes tiveram de ser testados geneticamente nos CDC para confirmar se haviam sido causados por cepas importadas do vírus, e não pelas cepas domésticas que circulam tranquilamente.

Como ocorre com o sarampo, não há cura para a rubéola. Nos Estados Unidos, a vacina serve normalmente para prevenir sarampo, caxumba e rubéola.

Os casos de sarampo nos EUA aumentaram recentemente porque alguns pais, que acreditam que a vacina provoca o autismo, não deixam que seus filhos sejam vacinados. 

O sarampo endêmico foi eliminado do hemisfério em 2002, mas os casos importados podem aparecer em bolsões onde há crianças que não foram vacinadas, como aconteceu no ano passado em um surto que começou na Disneylândia, na Califórnia.

A rubéola é menos contagiosa do que o sarampo, e sua vacina é um pouco mais eficiente, de modo que os raros casos importados não se espalharam de maneira tão rápida.

A vacina contra a rubéola foi desenvolvida em 1969 pelo dr. Maurice Hilleman, um prolífico inventor de vacinas.

Em 1964-65, uma variedade do vírus vinda da Europa provocou uma epidemia, ao que se calcula, com 12,5 milhões de casos em todo o país. Das 20 mil crianças infectadas, nascidas vivas, 2.100 morreram logo após o nascimento; 12 mil ficaram surdas; 3.580 cegas; e 1.800 apresentaram deficiências mentais permanentes.

Vítima famosa. A mais famosa vítima da rubéola nos EUA foi talvez a atriz Gene Tierney. Em 1943, no início da gravidez, ela se apresentou como voluntária num show realizado na Hollywood Canteen, uma boate da indústria cinematográfica, para as tropas americanas. Naquela noite, ela pegou a doença, e sua filha Daria nasceu pesando apenas 1.300 gramas, surda, com cataratas e com danos cerebrais tão graves que nunca aprendeu a falar.

Segundo a biografia da atriz, dois anos mais tarde, numa partida de tênis, ela encontrou uma fã, ex-integrante da Marine Corps Women's Reserve, que contou que saíra da quarentena da rubéola para ir à Canteen naquela noite.

"Todo mundo me disse para não ir, mas eu achei que deveria", a mulher contou para a atriz: "Você sempre foi minha favorita".

Ela ficou tão chocada que não conseguiu responder.

Agatha Christie usou a história no enredo do seu livro A Maldição do Espelho. Nele, uma atriz mata a mulher cuja leviandade destruiu sua filha.

A campanha para a eliminação da rubéola nas Américas foi lançada formalmente pela Organização Pan-americana da Saúde em 2003, mas muitos países já haviam acabado com os respectivos surtos com várias campanhas.

As nações do Caribe introduziram com um programa piloto nas Bahamas em 1997, disse a dra. Karen Lewis-Bell, uma assessora da Organização Pan-americana da Saúde da Jamaica. 

Naquela altura, a maioria das crianças era vacinada nas escolas , mas muitos homens adultos não estavam imunizados porque as primeiras campanhas visavam prioritariamente as meninas a partir dos 10 anos de idade, por constituírem o grupo de maior risco.

Entretanto, como inevitavelmente algumas garotas não chegam a ser imunizadas e nenhuma vacina funciona 100%, temia-se que os homens se tornassem transmissores e não fosse possível pôr fim ao sofrimento das crianças. 

As equipes de vacinação montaram seus equipamentos em shopping centers, canteiros de obras, sindicatos, pontos de ônibus, colégios, universidades e todo e qualquer lugar onde se encontrassem homens ainda não imunizados.

Naquela altura, a campanha aplicava na maior parte a vacina tríplice, e explicava aos homens que o componente da rubéola protegeria seus filhos ainda no ventre das mães, e que o componente da caxumba poderia prevenir as complicações decorrentes desta doença, que nos homens, depois da adolescência, incluem um doloroso inchaço dos testículos e esterilidade.

Não só os homens fizeram fila para ser vacinados, "como levaram esposas e namoradas para os postos a fim de se imunizarem também", disse a dra.

A campanha também atendeu celebridades, como integrantes do time de cricket das West Indies, as candidatas ao concurso de Miss Mundo e âncoras de televisão.

Obstáculos. Como acontece em todas as campanhas para a eliminação de doenças, houve problemas.

Por exemplos, em 2006, os casos confirmados nas Américas caíram para menos de 3 mil. Mas, em 2007, um surto ocorrido na Argentina, Brasil e Chile elevou o número dos casos no hemisfério para mais de 13 mil. A maioria deles em meninos adolescentes e jovens que não haviam sido contemplados para vacinação, por terem estado anteriormente no Caribe.

Nos EUA e no Canadá, as campanhas de vacinação em massa sempre são feitas quando há surtos de sarampo e consequentemente aumenta a proteção contra a rubéola.

Desde 2003, muitos outros países do hemisfério realizam anualmente uma semana de vacinação destinada a imunizar cerca de 60 milhões de pessoas. A deste ano começou no sábado. 

Surtos circunscritos de rubéola continuarão em outros países em geral saudáveis. O Japão registrou 15 mil casos em 2013, e Taiwan está sob suspeita de rubéola desde que a doença foi diagnosticada num comissário de bordo que trabalhou recentemente em voos para Hong Kong, Vietnã e Indonésia. / Tradução de Anna Capovilla

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