Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Santa Casa interrompe atendimentos de urgência e emergência em hospital central

Motivo de paralisação é a falta de recursos para a compra de materiais e medicamentos necessários

Fabiana Cambricoli e Mônica Reolom, O Estado de S. Paulo

22 Julho 2014 | 17h15

Atualizada às 23h52

SÃO PAULO - Responsável por receber 1,2 mil pacientes diariamente e referência em atendimentos de alta complexidade, o Pronto-Socorro da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, na região central da cidade, fechou suas portas nesta terça-feira, 22, por falta de material e de medicamentos. Os insumos deixaram de ser entregues pelos fornecedores depois de a instituição acumular uma dívida de cerca de R$ 50 milhões com as empresas.

Em 400 anos de história, é a segunda vez que a Santa Casa interrompe os atendimentos de urgência e emergência. O primeiro fechamento aconteceu nos anos 1980, pelo mesmo motivo. Não há previsão de quando a situação será normalizada.

A decisão de fechar as portas do pronto-socorro foi tomada na manhã desta terça, após a direção ser informada por médicos que faltavam itens básicos no PS, como seringas, catéteres, luvas e remédios. “Temos 700 pacientes no setor de internação e mais de 100 que já estão no pronto-socorro. Preferimos assegurar que estes fossem atendidos com o nosso pequeno estoque de insumos do que receber mais pacientes e todos ficarem sem o atendimento adequado”, afirmou Kalil Rocha Abdalla, provedor da Santa Casa.

Ele diz que a situação ficou insustentável porque o repasse recebido pela instituição por parte dos governos estadual e federal é insuficiente para cobrir os custos dos atendimentos feitos pelo SUS. “Hoje, só recebemos 60% do que gastamos. No pronto-socorro central, por exemplo, temos 100 leitos e operamos sempre com cerca de 60 pacientes a mais, em macas no corredor, pelos quais não recebemos um centavo”, disse ele. De acordo com o provedor, a Santa Casa recebe hoje repasse de R$ 20 milhões mensais, quando o necessário seriam cerca de R$ 34 milhões.

Nesta terça, o Estado entrou no pronto-socorro e viu 46 pacientes sendo atendidos no corredor. Um terço deles estava lá havia mais de três dias à espera de um leito regular.

A demanda ficou ainda maior após o Pronto-Socorro do Hospital das Clínicas fechar parcialmente para reforma, em fevereiro de 2013. Segundo a direção da Santa Casa, o número de atendimentos aumentou 40%.

Promessas. De acordo com Abdalla, os governos não cumpriram integralmente com a promessa de aumentar o repasse para a Santa Casa após a entidade ameaçar fechar as portas do pronto-socorro, em 2011. “Tivemos um pequeno aumento de repasse do Ministério da Saúde, por meio do programa SOS Emergências, mas só isso. O governo do Estado disse que dobraria o repasse para as Santas Casas, mas nós não recebemos isso”, disse. De acordo com o provedor, entre 2011 e 2014, o aumento no repasse dos dois governos foi de R$ 2,5 milhões mensais, o que ele considera insuficiente.

“Nos últimos meses, liguei várias vezes para os secretários municipal e estadual da Saúde avisando sobre a situação, mas parece que ninguém acreditava. Hoje, depois que eu os comuniquei sobre o fechamento, começaram a me ligar em busca de uma solução”, disse Abdalla.

De acordo com o provedor, o fechamento do pronto-socorro não está relacionado com a dívida total da Santa Casa, de mais de R$ 300 milhões. “Essa nós estamos renegociando. O problema de agora foi que os fornecedores não querem mais entregar insumos porque não temos dinheiro para pagar.”

Outras unidades. A direção afirma que o problema deverá afetar outras unidades administradas pela Santa Casa, como o Hospital São Luiz Gonzaga e o Hospital Penitenciário, ambos na zona norte, e o Hospital Geral de Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo. “Os fornecedores também podem deixar de entregar os insumos nesses locais, porque a instituição com dívida é a mesma”, disse Abdalla.

Após a decisão do fechamento ser tomada, a Santa Casa avisou os órgãos reguladores de vagas que não iria mais receber pacientes e afixou em seu portão principal uma faixa avisando os usuários sobre a interrupção do atendimento.

O pintor Pedro Henrique da Silva, de 25 anos, foi pego de surpresa na noite desta terça ao buscar atendimento na unidade. “Estou com uma inflamação na vista porque caiu tinta no meu olho hoje, e vim aqui porque sei que é o único lugar que teria oftalmologista. Acho que vou ter de voltar para casa”, disse ele.

O supervisor de cobrança Diego Tadeu Veloso da Silva, de 30 anos, buscava atendimento para a mulher, Roseli Silva, também de 30, que estava com conjuntivite. “Isso é lamentável, pois é um hospital padrão, que todo mundo procura. Agora, vou ter de procurar outro por conta própria”, disse ele, que veio do Canindé, na zona norte.

Rosana da Cruz também não conseguiu atendimento para o seu filho de 4 meses, que estava com febre. Ela pegou um táxi e procurou outro pronto-socorro. Já a grávida Magda Moser, de 21 anos, que chegou ao local em trabalho de parto, conseguiu ser atendida. Acompanhada de um parente, ela veio de Carapicuíba, na Grande São Paulo, após passar por outras unidades.

Uma funcionária que trabalha na Santa Casa há 12 anos e não quis se identificar disse na noite desta terça que a situação no hospital estava “no limite”. “Não dá para deixar pacientes entrarem se é para deixar as pessoas no corredor”, afirmou.

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