'Saúde não é tratar apenas a doença'

Especialistas dizem que sistema de atendimento deve ser horizontal para acompanhar e orientar o paciente

O Estado de S. Paulo

17 Julho 2014 | 14h46

SÃO PAULO - Os Fóruns Estadão 2018 chegaram nesta quarta-feira, 16, à terceira de uma série de seis debates sobre grandes temas que afetam a vida dos brasileiros. Qualidade da assistência no Sistema Único de Saúde (SUS), a superlotação da rede particular e o impacto que o envelhecimento da população está causando nos gastos do setor foram alguns dos tópicos que nortearam as discussões sobre a saúde no Brasil.

As três palestras aconteceram na sede do Insper, instituto de geração de conteúdo e pesquisa, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo, das 9h10 às 13h30. Compareceram importantes representantes do setor, que vivenciam os problemas que afligem todos os brasileiros, sejam os usuários de planos de saúde ou do SUS.

O economista André Medici, do blog Monitor de Saúde, e Gonzalo Vecina Neto, superintendente corporativo do Hospital Sírio-Libanês abriram a manhã de discussões, a princípio pautada por uma série de estatísticas relatadas pelo economista que comprovaram a falta de eficiência do SUS.

“Na verdade, é só olhar as filas de espera nos hospitais para ver que o SUS não está funcionando como deveria”, diz Medici. “50% da ineficiência se deve ao mau uso do sistema - sim, há corrução. O SUS foi montado para ser um sistema único, mas a maior parte dele, 52%, fica sob o comando da rede filantrópica e suplementar. ” Medici, assim como a maioria dos palestrantes, defendem a integração do SUS com a rede privada, para economizar gastos e otimizar a assistência.

Numa visão mais médica, e de quem já foi secretário municipal da Saúde em São Paulo, Vecina Neto apontou para a forma equivocada como a saúde é tratada em todas as esferas do País. “Temos um modelo de assistência vertical. Recebemos os pacientes quando estão doentes, numa situação de crise. Saúde não é tratar apenas a doença. Nem sabemos se ele continua o tratamento em casa”, diz. “O ideal é construir uma assistência que não atenda episódios, mas que atenda o paciente a vida inteira.” Vecina se refere em manter a qualidade de vida do brasileiro justamente para diminuir os atendimentos sérios nos hospitais, que representam o maior custo. “O paciente precisa saber, ser informado, sobre os cuidados que ele precisa ter. Receber um paciente no hospital que teve um enfarte nas últimas três horas é garantir que ele continue a ter a vida de antes, sem restrições, porque o acidente vascular não irá comprometer o tecido do coração.”

Educação. Medici lembrou que o brasileiro precisa ter várias vias de informação, além do médico. “Nos EUA, as escolas implementaram noções de economia na escola. Saúde deveria ser matéria curricular”, diz Medici. “O governo consegue fazer uma campanha para que os brasileiros parem de fumar. Poderia fazer uma específica para aumentar a informação sobre cuidados importantes, como comer menos sal. Poderia dizer que linguiça calabresa tem muito sal e gordura, que podem fazer mal, por exemplo. São alertas importantes”, complementa Vecina Neto.

Saia justa. Um dos momentos esperados foi a participação dos representantes da Agência Nacional de Saúde, órgão regulador do mercado de planos de saúde, no segundo debate. Nos últimos cinco anos, os beneficiários de planos de saúde cresceram 42,6%. Há muitas reclamações, processos na Justiça, e confusões provenientes principalmente dos planos coletivos, que ficam de fora do controle da agência.

“Estamos tentando capitalizar o mercado para que seja sustentável. A margem líquida do setor é pequena, 2%, e da sinistralidade chega a 80%”, diz César Serra, diretor-adjunto de Normas e Habilitação de Operadoras. De acordo com ele, o grande desafio é conseguir desenhar produtos que garantam todas as expectativas do consumidor (entre elas, ser bem atendido na velhice).

Quando perguntado sobre o oligopólio das grandes empresas, Serra afirmou que a oferta de empresas é amplo e diversificado. Reynaldo André Brandt, neurologista do Hospital Israelita Albert Einstein, interferiu, lembrando que isso acontece em grandes centros, mas em pequenas cidades algumas empresas são praticamente donas do mercado.

Leandro Fonseca , diretor-adjunto de Desenvolvimento Setorial da ANS, lembrou que a agência vem fazendo sua lição de casa. No último ano foram fechados 161 planos de saúde por não estarem de acordo com as normas. “Deixamos claro que não é possível agregar novos clientes enquanto não forem resolvidos os atendimentos na base das operadoras.”

Brandt lembrou à plateia que reclamações devem ser encaradas com uma grande oportunidade de melhoria dos serviços. “Desse modo cada um pode buscar resultados de suas ações. O que interessa é a integração entre o pretador de serviço e a operadora para que o paciente tenha o tratamento mais adequado e não fique sem assistência.”

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