AE
AE

Secretário do Ministério da Saúde admite erro no combate à gripe suína

Após revisão em prontuários de pacientes que morreram em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, Jarbas Barbosa afirma que decisão do governo chileno de usar oseltamivir em larga escala foi mais eficaz que a do Brasil

Clarissa Thomé,

03 Setembro 2012 | 22h30

O secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, admitiu que o Brasil errou na política de combate à gripe suína. “Em vez de usarmos uma estratégia que já se mostrava eficaz (o uso do antiviral oseltamivir), ficamos discutindo quem vacinar, se vamos vacinar jovens ou não. A gente não aprendeu com os ensinamentos de 2009”, afirmou, referindo-se ao ano da pandemia.

Para Barbosa, o País travou um “debate enviesado” em relação à importância da vacina. O secretário de Vigilância Barbosa comparou a estratégia adotada pelo governo brasileiro, centrada na vacinação, com a utilizada pelo Chile naquele ano.

“O Chile, que possui um inverno muito mais forte, teve um terço das mortes das regiões Sul e Sudeste do Brasil – a taxa de mortalidade no Chile ficou em 0,8 por 100 mil habitantes e aqui, em 3,2 por 100 mil habitantes. A diferença básica é que o Chile usou o oseltamivir em larga escala. O Chile perdeu uma grávida; o Brasil, 200”, afirmou.

Revisão feita pelo Ministério da Saúde nos prontuários das pessoas que morreram em decorrência da gripe suína em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul mostra que a grande maioria das vítimas “ou não teve acesso ou teve acesso atrasado” ao antiviral oseltamivir, disse Barbosa.

Segundo o ministério, a causa do problema é a pouca tradição do brasileiro de tratar gripe com remédios. É comum os pacientes chegaram tarde aos serviços de saúde porque tentaram driblar os sintomas da gripe suína com chás e receitas caseiras. Essa cultura afeta os médicos, que não prescrevem o oseltamivir, conhecido pela marca Tamiflu.

Antes da chegada do inverno, o ministério emitiu alerta aos médicos sobre as doenças respiratórias e distribuiu um material com orientações – principalmente para os Estados do Sul, além de São Paulo e Minas Gerais – sobre o período adequado para a medicação e a dosagem.

Neste ano, até o dia 20 de agosto, o País registrou 2.398 casos da doença e 307 mortes. Desse total, 1.786 pessoas adoeceram e 177 morreram na região Sul (mais informações nesta página).

Equívoco. O Ministério da Saúde recomenda que não se espere pelo resultado de exame que aponta a existência ou não do vírus H1N1 para iniciar o tratamento. Qualquer paciente com síndrome gripal – tosse ou dor de garganta, com febre de 38°C – deve ter acesso ao remédio.

“O ministério distribuiu 1 milhão de tratamentos, 10 milhões de cápsulas. E orientou a descentralizar a medicação em postos, UPAs (Unidades de Pronto-Atendimento), nas secretarias municipais. Se o paciente tiver receita médica, mesmo que da rede privada, o remédio tem de ser entregue”, afirmou Barbosa.

Para o coordenador de Programas e Projetos da Fundação Oswaldo Cruz, em Brasília, José Cerbino, o acesso ao oseltamivir “é fundamental”. Ele defendeu a tese Pandemia de Influenza no Brasil: Epidemiologia, Tratamento e Prevenção da Influenza A, no Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz).

A pesquisa identificou a eficácia do oseltamivir no tratamento da gripe suína. “Nos pacientes internados no Rio, o medicamento reduziu em até 60% as mortes, mesmo quando utilizado até o quarto dia. A gente tinha dúvida de quanto tempo depois do início dos sintomas o oseltamivir se mostrava eficaz. A recomendação era de até 48horas. Na pandemia, esse período foi alargado e o remédio foi iniciado até quatro dias depois do início dos sintomas, com eficácia.”

Mais conteúdo sobre:
gripe suína H1N1 influenza

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.