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‘Sei o que é melhor para mim. Se não vou viver feliz, prefiro morrer’

Aos 22 anos, Humberto alega condição ‘insuportável’ e destaca que dependerá de uma máquina para o restante da vida

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José Maria Tomazela ,
O Estado de S. Paulo

16 Fevereiro 2017 | 03h00

O jovem José Humberto Pires de Campos Filho, de 22 anos, que decidiu não tratar a doença renal que pode levá-lo à morte, disse estar ciente de que vai causar polêmica, mas age conforme sua consciência. “Sei o que é melhor para mim. E o melhor é viver do jeito que vivia antes, e era feliz. Se não vou viver feliz, prefiro morrer”, disse. Humberto falou ao Estado minutos antes de sair de casa para fazer aquela que espera ser uma das últimas sessões de hemodiálise. “Estou indo por ser obrigado pela Justiça, mas vou lutar para derrubar a liminar.”

A doença renal comprometeu o funcionamento dos rins e o jovem morador de Trindade, em Goiás, precisa fazer hemodiálise para não entrar em coma, que pode se tornar irreversível. Como se nega a aceitar o tratamento, sua mãe recorreu à Justiça. Uma liminar do juiz Éder Jorge, da 2.ª Vara de Trindade, interditou parcialmente o rapaz para que seja obrigado a submeter-se ao tratamento. “É um tratamento insuportável, contínuo. E não cura, será pelo resto da vida. Sinto muita dor, passo muito mal, saio da máquina superdebilitado. Não quero isso para minha vida. Não compensa viver assim”, disse.

Sobre a possibilidade de um transplante, capaz de devolver a função renal, ele acha que não é a cura. “Tem transplantado que consegue ficar alguns anos bem, mas outros, não. O rim de cadáver tem mais chances de rejeição. Não serve para mim. Posso até mudar de ideia, talvez, mas hoje é o que penso e quero. Estou indo porque a Justiça me obriga.” Ele conta que recusou a oferta da mãe, que pretendia ceder um rim. “Não quero transferir tudo o que estou passando para ela. Minha mãe já tem idade, pode haver problema na cirurgia.”

Ao ser questionado se não vale a pena lutar enquanto há vida, já que muitas pessoas enfrentam tratamentos difíceis contra o câncer e muitas vezes se recuperam, ele disse que não tem a força dessas pessoas. “Meu tratamento é muito doloroso e não vejo futuro, não quero viver assim. É melhor que seja do meu jeito. Vou brigar por esse direito.” 

PARA ENTENDER

Nem eutanásia nem ortotanásia

A recusa de José Humberto Pires de Campos Filho em submeter-se ao tratamento de hemodiálise não pode ser classificada como eutanásia nem como ortotanásia. Na primeira, proibida no Brasil, o paciente terminal é submetido a um ato que o leva à morte de forma assistida e sem sofrimento. Já na ortotanásia, permitida no País, o doente em estado terminal, com doença grave e irreversível, pode ser privado de “procedimentos fúteis” que prolonguem sua vida, como ser entubado ou manter a respiração por meio de aparelhos.

 

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