WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Sem exames, mães vivem temor da microcefalia

Município de Itapetim, no interior de Pernambuco, pede verbas para Estado e União; situação na cidade alarma especialistas

Clarissa Thomé, Enviada especial

17 Dezembro 2015 | 03h00

ITAPETIM (PE) - As mães de seis das 11 crianças nascidas em Itapetim, sertão pernambucano, com suspeita de microcefalia começaram a ser avisadas nesta quarta-feira, 16, que os exames detalhados que fariam no Recife serão cancelados. A razão é a mudança nos parâmetros para investigar a má-formação no crânio, informou a Secretaria de Saúde do município. Pelo planejamento inicial da prefeitura e da Secretaria de Saúde de Pernambuco, os recém-nascidos seriam atendidos na capital pernambucana nos próximos dias 28 e 29. 

A Secretaria de Saúde de Itapetim soube nesta quarta-feira pelo Estado que só serão avaliados os nascidos com 32 centímetros ou menos de perímetro craniano; não mais 33 centímetros, como estabelecido inicialmente. As mães, que haviam sido alertadas sobre o risco de sequelas e convencidas a irem ao Recife, a 360 quilômetros da cidade em que vivem, estão preocupadas com a falta de alternativas para que as crianças sejam atendidas. A situação do município alarmou os especialistas por causa do número elevado de suspeitas para a pequena população, de 13.855 habitantes.

A estudante Valéria Pereira Barros, de 17 anos, foi avisada pela pediatra que seu bebê, Arthur Emanuel, de 2 meses, pode ter microcefalia. “Ele nasceu com 33 centímetros de perímetro cefálico e a pediatra explicou que ele podia ter paralisia, problema de vista, ou podia não ouvir. Ela disse todos os riscos. Como eu não sei o que meu filho tem, quero ir ao Recife para descobrir”, disse ela. 

Valéria está ainda mais assustada porque no terceiro mês de gravidez teve sintomas comuns de zika e dengue. “Tive dor, febre e mancha no corpo. Não chegaram a pedir exame para ver se era mesmo dengue porque ninguém falava nada de zika”, reclamou ela, que nesta quarta foi avisada que a consulta agendada para o fim do mês no Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), ligado à Universidade de Pernambuco (UPE), não acontecerá.

A agricultora Dione Clécia da Silva, de 25 anos, mãe de Lívia, de um mês, também foi avisada de que a menina não passará por consulta na capital. A criança nasceu com 33 centímetros de perímetro cefálico. “A gente fica angustiada. Mas Deus ajuda e não há de ser nada”, disse. 

A decisão de não levar mais todos os bebês desagradou aos profissionais de saúde de Itapetim. “Fomos atrás das mães, algumas tivemos de convencer da importância da avaliação no Recife, porque a família dizia que a criança estava bem, e nós tivemos de explicar os riscos. Agora, com que cara eu vou falar para essa mãe: ‘seu filho não vai mais’? Elas estão assustadas”, afirmou a coordenadora de Vigilância Epidemiológica do município, Karina Cândido.

O Huoc confirmou ao Estado haver apenas cinco consultas agendadas. No fim da tarde, a infectologista Regina Coeli Ferreira Ramos, que integra a equipe de investigação de microcefalia do hospital, deu nova versão. Segundo ela, “as crianças notificadas serão todas avaliadas, mesmo que não estejam correspondendo ao protocolo no Ministério da Saúde”.

Assistência. O prefeito Arquimedes Machado (PSB) afirmou que não tem condições de contratar especialistas para o acompanhamento dos bebês. “A prefeitura tem acompanhado os casos com recursos próprios, mas não temos condições de contratar profissionais, equipamentos. Estamos totalmente dependentes do governo do Estado e do governo federal”, lamentou.

A Secretaria de Saúde informou que está organizando a rede para que o atendimento aconteça mais próximo das casas. A referência para o sertão deverá ser o Hospital Agamenon Magalhães, em Serra Talhada, a 150 km de Itapetim. 

Segundo o planejamento estadual, a região terá ainda três Unidades Pernambucanas de Atenção Especializada (Upae) em Serra Talhada e em mais duas cidades da região, Afogados da Ingazeira, a 75 km de Itapetim, e Arcoverde, a 165 km.

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