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Só 0,9% dos novos médicos de SP é negro

Levantamento foi feito com base nos inscritos na prova do Cremesp; quase metade apresenta renda familiar superior a 20 salários

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Fabiana Cambricoli ,
O Estado de S. Paulo

03 Fevereiro 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Somente 0,9% dos cerca de 3 mil novos médicos formados no ano passado no Estado de São Paulo são negros, revelam dados inéditos do Conselho Regional de Medicina (Cremesp) obtidos pelo Estado. O número é inferior à média da população negra no Estado, de 6,42%, considerando os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O perfil dos egressos dos cursos de Medicina do Estado foi feito pelo Cremesp com base nos dados fornecidos pelos recém-formados no último exame anual obrigatório do órgão, feito no fim do ano passado. As estatísticas mostram ainda que a maioria dos recém-formados é mulher de classes sociais altas.

De acordo com os dados do Cremesp, enquanto apenas 0,9% dos novos médicos são negros, 85% se declaram brancos, quando a média dessa população em São Paulo é de 63%. Na questão de gênero, 56,6% dos novos médicos são do sexo feminino, número superior à proporção de gênero observada no Estado, onde 51,3% da população é formada por mulheres, de acordo com dados de 2014 da Fundação Seade.

O levantamento revela ainda que 47% dos recém-formados nas escolas médicas do Estado têm renda familiar mensal superior a 20 salários mínimos, o equivalente a R$ 15.760. Na população geral de São Paulo, apenas 3% dos moradores estão nessa faixa de rendimento.

Realidade. Para estudantes de Medicina e profissionais já formados, o baixo número de médicos negros e vindos de famílias pobres no mercado não surpreende. “Na minha sala, que tem 115 alunos, sou o único negro. Tenho bolsa de estudos do ProUni e acho que as políticas de democratização do acesso ao ensino ajudam, mas ainda são insuficientes”, diz Renan Zaramella dos Santos, de 23 anos, aluno do 4.º ano de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, onde a mensalidade do curso é de R$ 4.800.

Médico residente no Hospital São Paulo e graduado na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Alysson Ferreira Batista, de 35 anos, afirma que sentiu o preconceito racial de colegas e professores durante a faculdade e após a conclusão do curso.

“Era comum outros médicos se dirigirem a mim como se eu fosse o técnico de raio X ou auxiliar de enfermagem, como se um negro não pudesse ser médico”, conta Batista.

Cota. Presidente do Cremesp, Bráulio Luna Filho afirma que as características e o preço de um curso de Medicina aumentam essa desigualdade. “É um curso muito longo, integral, que em média custa R$ 6 mil por mês. Isso já é caro para a classe média, imagina para quem está na faixa mais pobre da população”, diz ele, que defende a manutenção e ampliação das políticas governamentais de financiamento estudantil e cotas.

Para Frei David, coordenador executivo da ONG Educafro, é necessário rever as políticas de cotas em cursos de alta demanda. “Nesses cursos, como Medicina, deve haver uma política de inclusão ainda maior, com mais vagas para cotistas. Isso é necessário para corrigir uma distorção. Se formos analisar a proporção de estudantes de cada cor nessas faculdades, é um Brasil esquizofrênico, que não reflete a realidade do seu povo.”

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