Luis Robayo/AFP
Luis Robayo/AFP

‘Só guerras cancelam Jogos Olímpicos', diz historiador

Autor de O Livro Completo da Olimpíada, David Wallechinsky diz ser pouco provável que evento seja cancelado por causa do zika vírus

Entrevista com

David Wallechinsky

Cláudia Trevisan, O Estado de S. Paulo

13 Fevereiro 2016 | 16h16

WASHINGTON - Só guerras provocaram o cancelamento de Olimpíadas e é pouco provável que o vírus zika impeça a realização dos Jogos no Brasil, diz David Wallechinsky, um dos principais historiadores do tema e autor da obra de referência O Livro Completo das Olimpíadas, reeditado a cada quatro anos.

Segundo ele, apenas o nazismo levou atletas a decidirem não participar de uma Olimpíada, em 1936. “Não me lembro de casos provocados por doenças. Você trabalha tanto para formar o time que você quer ir”, disse em entrevista ao Estado.

O historiador identificou 18 mulheres grávidas que participaram de Olimpíadas desde os anos 20. A alemã Cornelia Pfohl, por exemplo, estava no sétimo mês de gestação quando integrou o time de arco e flecha de seu país nos Jogos de Atenas. Quatro ano antes, ela havia conquistado medalha de bronze em Sydney, na Austrália, enquanto esperava sua primeira filha.

A seguir, trechos da entrevista de Wallechinsky, que preside a Sociedade Internacional de Historiadores Olímpicos:

1. Qual a possibilidade de cancelamento das Olimpíadas no Brasil por causa do vírus zika?

É muito improvável, se não impossível. Mas quando houve problemas no passado, como SARS ou gripe aviária, houve um alerta com bastante antecedência e as pessoas foram capazes de se preparar. O problema com o vírus zika é que estamos a menos de seis meses das Olimpíadas e não sabemos o que realmente acontecerá. A situação mais semelhante a essa que já vimos foi com os Jogos Olímpicos da Juventude em Nanquim, na China, em 2014, durante a crise de ebola. Os atletas dos países que estavam lutando contra o ebola puderam ir, mas não puderam participar de dois tipos de esportes: os de combate e natação. Isso só afetou alguns deles. No caso atual, teria que haver uma explosão de problemas e uma situação semelhante à do ebola para os Jogos serem cancelados. É altamente improvável. O Brasil está pronto e é difícil imaginar um cancelamento com todos os patrocinadores e todo o dinheiro que foi gasto.

2. Em que situações houve cancelamento de Jogos Olímpicos no passado?

Só a guerra levou ao cancelamento de Olimpíadas. A de 1916 foi cancelada por causa da Primeira Guerra Mundial. Depois, a Segundo Guerra Mundial levou à suspensão dos Jogos de 1940 e 1944. Houve uma interrupção de 12 anos entre 1936 e 1948. Três Olimpíadas foram canceladas por causa da guerra.

3. Por que é tão difícil cancelar uma Olimpíada?

Olimpíadas ocorrem só a cada quatro anos e os atletas dedicam suas vidas, seu treinamento e suas carreiras para esse grande momento. Além disso, muito dinheiro é gasto agora. Se os Jogos forem cancelados, todas as redes de TV irão atrás de suas seguradoras, haverá uma série de disputas judiciais. É algo muito grande. Mesmo mudar o local das Olimpíadas é muito difícil. Já houve contratação de equipamentos, publicidade, hotéis. É muito improvável.

4. Qual o grau de preocupação entre os atletas americanos com o zika?

Sem dúvida há preocupação, mas todas as modalidades vão continuar as fases de testes para definir quem irá. Os times continuarão a ser formados, de qualquer maneira. Vamos ver o que ocorrerá quando as Olimpíadas se aproximarem. Meu palpite é que todos irão e que tudo sairá bem –desde que eles não pulem na Baía de Guanabara.

5. A principal questão do vírus zika são mulheres grávidas. Há grávidas entre atletas que vão para a Olimpíada?

Sim. Eu fiz uma lista de todas as grávidas que competiram em Olimpíadas. Em geral elas estão no início da gravidez. Mas já tivemos uma mulher grávida de sete meses competindo. Não há em esportes de combate, mas há em salto, por exemplo. Não é tão incomum. Mas essa não é a única preocupação. Na semana passada eu tive uma consulta com minha médica e ela me disse que eu deveria tomar muito cuidado quando for para as Olimpíadas. ‘Eu não sou uma mulher grávida’, eu respondi. Ela me disse que todo mundo está preocupado com mulheres grávidas, mas que há uma história ainda maior, que é a da síndrome de Guillain-Barré. Sua própria filha ficou paralisada por dois meses por causa da doença. Não sei como ela a contraiu. Ela me disse que eu terei que me cobrir e usar repelente sob as roupas.

6. O público está reconsiderando a decisão de ir ao Brasil ou tende a ir de qualquer maneira?

Acho que há um pouco de ambas as situações. Ainda é muito cedo para saber. Ontem minha mulher me disse que não está tão certa de que irá. Eu pedi para que ela não tome a decisão agora. Vamos esperar quatro meses para decidir. Ela adora ir para as Olimpíadas, mas ficou muito preocupada depois da conversa com minha médica. Um bom cenário seria um no qual não há aumento significativo de casos, especialmente no Rio. Um cenário negativo seria o de expansão da epidemia, que leve as pessoas a desistirem de ir. Ainda acho que os atletas farão tudo o que puderem para ir. Eles só têm uma chance a cada quatro anos.

7. Se muitas pessoas abandonarem os planos de ir ao Brasil, isso pode levar ao cancelamento das Olimpíadas?

Não, elas seriam mantidas. É bom lembrar que 99% das pessoas que seguem as Olimpíadas veem as competições pela TV. É um percentual muito pequeno que vai pessoalmente aos Jogos. Enquanto as equipes de TV estejam no Brasil, isso vai satisfazer os patrocinadores, especialmente os internacionais.

8. Há mulheres grávidas na delegação americana?

Nós não sabemos ainda. Poucos esportes escolheram seus times. Só saberemos com certeza em junho quem está na delegação americana.

9. Na história das Olimpíadas, há casos de atletas que decidiram não ir a um país por doenças ou problemas no país-sede?

Sim, nazismo. Alguns atletas não foram às Olimpíadas de 1936 por causa do nazismo. Mas não me lembro de casos provocados por doenças. Você trabalha tanto para formar o time que você quer ir.

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