Sono, memória e sexo

Estudos ajudam a explicar como o sono 'limpa' nossa memória

Jairo Bauer, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2017 | 03h00

Dois importantes estudos publicados na prestigiada revista Science na última semana ajudam a explicar como o sono “limpa” nossa memória e “libera” espaço no cérebro para que esteja pronto para reter e processar mais informações no dia seguinte.

Para entender melhor vale uma explicação básica de como se formam nossas memórias. As células do sistema nervoso central (neurônios) não estão diretamente coladas umas às outras. Elas formam áreas de contato entre si (chamadas de sinapses) para transmitir as informações. Essas sinapses são estruturas bastante plásticas e sua configuração pode mudar ao longo do dia e das nossas vidas. Quando somos expostos a uma imagem, conversa ou fato, em alguma parte do nosso córtex cerebral uma nova sinapse se forma ou se remodela. Memórias importantes são “salvas” e informações corriqueiras são “apagadas”. Mas como isso acontece?

Os trabalhos que utilizaram modelos animais tentaram explicar essa questão. O primeiro, da Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), investigou o cérebro de camundongos por 13 anos e concluiu que, durante o sono, as sinapses deles encolhiam em cerca de 18%. No dia seguinte, elas tornavam a crescer para, então, diminuir novamente de noite. Para visualizar as sinapses, os cientistas utilizaram uma avançada técnica de imagem em microscopia eletrônica. 

Já o segundo estudo buscou bases bioquímicas para explicar a “limpeza” das memórias pouco relevantes. Pesquisadores da Universidade John Hopkins, também nos EUA, descobriram que, quando os camundongos dormem, suas sinapses absorvem uma proteína conhecida como homer1a. Essa serve como um “detergente”, que enfraquece as conexões entre as sinapses formadas para “guardar” lembranças do que aconteceu durante o dia. Ao fazer esse processo, o cérebro, a exemplo do que faz o disco rígido de um computador, libera espaço. Não é à toa que, durante o dia, a proteína homer1a “some” das áreas dessas sinapses. Todas as informações foram divulgadas pelo jornal inglês Daily Mail.

Os dois estudos surgem meses depois que um trabalho pioneiro da Universidade de Freiburg, na Noruega, utilizou imagens das sinapses (por ondas magnéticas) de 20 estudantes, entre 19 e 25 anos, para sugerir que aqueles que tinham privação de sono apresentaram maior excitabilidade motora e pior desempenho cognitivo do que aqueles que tinham dormido bem. As sinapses de quem não dormia ficaram mais tensas, saturadas e “cheias” de memórias do dia anterior, o que dificultava o pensamento e o raciocínio. Daí a importância, por exemplo, de uma boa noite de sono antes de uma prova! 

Menopausa. Outro estudo divulgado na última semana, da Escola de Medicina de Harvard, da Universidade da Califórnia e da Clínica Mayo, todas americanas, sugere que dormir bem também pode melhorar a vida sexual das mulheres que chegam à menopausa. 

O trabalho publicado no periódico Menopause acompanhou 94 mil mulheres entre 50 e 79 anos e detectou que 13% delas apresentavam insônia. Entre aquelas que dormiam menos de sete horas por noite, por exemplo, a satisfação com a vida sexual foi bem mais baixa do que entre as que não enfrentavam dificuldades de sono. Só 56% delas estavam satisfeitas com sua atividade sexual. Quanto menor a quantidade de horas dormidas, maior a insatisfação.

Bom lembrar que as alterações hormonais que cercam esse período da vida da mulher podem afetar a qualidade do sono, trazendo uma série de problemas adicionais para a saúde como hipertensão arterial, doenças cardíacas e sintomas depressivos. A terapia de reposição hormonal, segundo os pesquisadores, aliviou o impacto do sono sobre a atividade sexual, apontando um possível tratamento no futuro.

Mais conteúdo sobre:
SÃO PAULO Daily Mail Noruega

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.