DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Sorocaba vai reavaliar os números da dengue

Dados podem estar superestimados; revisão visa a evitar situação de alarme que poderia levar mais pessoas a unidades de saúde

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

23 Março 2015 | 19h23

SOROCABA - A prefeitura de Sorocaba, interior de São Paulo, decidiu suspender a divulgação do novo boletim da dengue, previsto para esta terça-feira, 24, e reavaliar os números que colocam a cidade com a de maior incidência da doença no Estado de São Paulo. De acordo com o último boletim, divulgado há uma semana, são 22.765 casos notificados, dos quais doze podem ter resultado em mortes - seis delas já foram confirmadas.

De acordo com a diretora da Vigilância em Saúde, Daniela Valentim, como o número resulta de todos os atendimentos a pacientes com sintomas, ele pode estar superestimado. "Vimos que, em muitos casos, as pessoas supostamente com dengue, não tinham febre, que é o principal indicador da doença." Além da repercussão negativa para a cidade com a dimensão da epidemia, a revisão foi decidida para evitar uma situação de alarme que poderia levar um número ainda maior de pessoas às já lotadas unidades de saúde. "Está havendo uma corrida de pessoas que não têm sintomas ou que, claramente, não apresentam os principais sintomas da dengue. Gostaríamos que a preocupação maior de todos fosse em remover os criadouros do mosquito que ainda são muitos", disse.

Pelo menos 1,5 mil pessoas procuram diariamente os serviços de saúde com suspeita de dengue. A demanda excessiva lota as unidades de saúde e transforma em um calvário a busca pelo atendimento. Apenas na Unidade Pré-Hospitalar (UPH) da zona leste, onde está instalado o Centro de Monitoramento da Dengue, mais de mil pessoas procuraram atendimento no domingo, 22. Outra UPH, na zona oeste, permaneceu lotada o dia todo. 

Cenas de pacientes sentados ou deitados no chão se tornaram corriqueiras. Daniela reconhece que também há casos de pessoas que não procuraram os serviços de saúde e estão se tratando em casa. "Meu marido desistiu de esperar e vai seguir o meu tratamento", contou Nilce de Souza Martins, moradora do Jardim Iporanga, que já teve dengue e estava com o filho Lucas, de três anos na fila de espera. Ao seu lado, o aposentado Galvão Mendes pensava em desistir, após esperar cinco horas. Ele tinha passado apenas por uma atendente. "Dizem que não adianta remédio, é o tempo que cura", justificou.

Na semana passada, moradores inconformados com a longa espera protestaram em frente aos postos de saúde interditando avenidas. A diretora da Vigilância lembra que nem sempre o tempo que a pessoa passa na unidade significa demora no atendimento. "É normal o paciente ter de esperar o resultado do exame e passar por uma segunda hidratação. Isso não significa que não esteja sendo atendido." Ela recomenda que, aos primeiros sintomas, as pessoas já façam a hidratação em casa, procurando os serviços de saúde caso apresentem piora.

A fila da dengue não se restringe às unidades públicas, segundo a secretária Luciana de Mattos. Ela esperou três horas na emergência de um hospital privado para conseguir atendimento para a filha Joyce. "Ela estava com quase 39 de febre e tinha muita gente na frente. Meu marido chegou a discutir com as funcionárias."

Impacto. A cidade está em estado de emergência por causa da dengue e a alta incidência já reflete na economia local. Em uma grande indústria, 280 dos 3,7 mil funcionários tiveram de se afastar após serem infectados. A doença não poupou nem o médico da empresa. Uma agência de turismo fechou as portas durante duas semanas depois que os donos e quase todos os funcionários caíram doentes. Um terço da frota de caminhões de uma transportadora está parado pelo mesmo motivo.

Em várias escolas municipais foi registrado aumento no número de ausências causadas pela doença. Em duas escolas infantis em que foram registrados casos suspeitos, algumas mães deixaram de levar os filhos para as aulas. Equipes da prefeitura aumentaram a fiscalização em terrenos sujos. Os moradores estão sendo notificados para efetuar a limpeza em 48 horas, sob pena de multa. 

Duas cidades vizinhas, Votorantim e Salto de Pirapora, também decretaram estado de emergência. O prefeito de Votorantim, Erinaldo Alves da Silva (PSDB) disse que a medida foi preventiva em razão do grande fluxo de pessoas entre a cidade e Sorocaba. A prefeitura instalou um núcleo para atendimento exclusivo de pacientes com sintomas e anunciou a contratação emergencial de médicos. A cidade tem 665 casos confirmados. Em Salto de Pirapora, uma pessoa morreu com dengue hemorrágica. Um segundo óbito está sendo investigado.

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