Giuseppe Puorto/Divulgação
Giuseppe Puorto/Divulgação

Substância do veneno da jararaca ajuda a regenerar sistema nervoso

De acordo com estudo, a bradicinina, presente no sangue de mamíferos e ativada por toxinas da serpente brasileira, pode ajudar na geração e proteção dos neurônios

Alexandre Gonçalves

25 Agosto 2011 | 17h58

Uma substância isolada do veneno da jararaca há mais de 60 anos ainda revela novas aplicações. Estudo divulgado nesta quinta-feira, 25, na 26ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (Fesbe), no Rio, mostrou que o peptídeo potenciador da bradicinina (BPP, na sigla em inglês), uma das principais toxinas da serpente brasileira, pode exercer um surpreendente papel na geração e proteção dos neurônios.

A bradicinina foi descoberta em 1949, após testarem o efeito do veneno da jararaca sobre o sangue de mamíferos, por Maurício Oscar da Rocha e Silva, pesquisador brasileiro que ajudou a fundar a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e identificou as propriedades hipotensoras - ou seja, para diminuir a pressão arterial - da substância.

A história tornou-se um exemplo clássico da inaptidão do país para transformar descobertas de bancada em negócio e, depois, em serviços que melhorem a vida das pessoas. Apesar de ter sido isolado de um animal brasileiro por um cientista brasileiro, o BPP serviu de base para um medicamento lucrativo vendido por uma multinacional: o captopril.

O cientista alemão Henning Ulrich, radicado no Brasil desde 1999, acredita que chegou a hora de recuperar o tempo perdido e descobrir uma nova finalidade para a substância - agora, gerando dividendos para o País.

Pesquisador do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP), decidiu estudar a bradicinina durante o doutorado na Universidade de Hamburgo, na sua terra natal. Ele analisava outro peptídeo responsável pela fantástica capacidade de regeneração das hidras - um invertebrado aquático.

Sabia que seres humanos também produzem a mesma substância e supôs que ela serviria para regenerar tecidos. Os resultados não foram muito empolgantes, mas, ao compará-la com a bradicinina, descobriu que a substância presente no sangue de mamíferos e ativada pelo veneno da jararaca funcionava muito bem na regeneração neuronal.

Nos testes realizados com ratos, Ulrich mostrou que a bradicinina faz com que células progenitoras do sistema nervoso diferenciem-se em neurônios, além de exercer outras importantes funções no cérebro. Na prática, uma lesão cerebral nos modelos animais apresentava uma evolução muito melhor quando ocorria na presença de doses extras da substância.

O grupo de pesquisadores também mostrou que a bradicinina exerce um papel neuroprotetor. Quando um neurônio morre, ele libera glutamato, substância tóxica para as células vizinhas, aumentando o impacto da lesão. Na presença da bradicinina, a intensidade da reação em cadeia diminui bastante.

A pesquisadora Telma Schwindt, do Laboratório de Neurociências do IQ-USP, coordenado por Ulrich, testou a substância em modelos de ratos com Parkinson. Algumas manifestações da doença diminuíram significativamente.

Contra a trombose

Outras duas substâncias extraídas do veneno da jararaca - a jarastatina e a jararacina - previnem a coagulação do sangue, diminuindo os riscos de trombose. É o que mostra um estudo, apresentado na reunião da Fesbe e coordenado pela pesquisadora Lina Zingali, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). As alternativas terapêuticas atuais para trombose apresentam muitos efeitos adversos. As duas substâncias foram testadas em amostras de sangue humano e obtiveram bons resultados.

 

* Repórter viajou a convite da Federação de Sociedades de Biologia Experimental 

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