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Juan Arredondo/The New York Times

ENTREVISTA: Jorge Osorio

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‘Surto ainda é muito recente na Colômbia’

Especialista no combate à dengue naquele país diz que é cedo para descartar microcefalia e pede estudos com Brasil

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Giovana Girardi

16 Fevereiro 2016 | 03h00

Segundo país com mais casos de infecção por zika nas Américas, a Colômbia anunciou, no fim da semana passada, que pelo menos 5 mil grávidas estão infectadas, mas nenhum caso de microcefalia relacionado à infecção foi relatado até o momento. A situação vem alimentando suspeitas de que o problema possa ser localizado no Brasil e, desse modo, a causa talvez possa ser outra que não o vírus que assusta o País.

Para o pesquisador colombiano Jorge Osório, da Universidade de Wisconsin-Madison, dos Estados Unidos, e um dos especialistas no combate à dengue em seu país, ainda é muito cedo para descartar que o problema também possa aparecer por lá. Ele defende que sejam feitos estudos cruzados, comparando gestantes brasileiras e colombianas, para tentar esclarecer essas questões. De todo modo, disse, é preciso cautela para tirar qualquer conclusão, porque a epidemia ainda é muito recente e não há informações suficientes.

Depois do Brasil, a Colômbia é o país com mais casos de zika na América, com 31.555 pessoas infectadas até sexta-feira. Por que se acredita que aqui tenhamos microcefalia e lá não? 

Há várias hipóteses que podemos considerar, mas todas ainda estão em investigação. A primeira é que as infecções na Colômbia são mais recentes que no Brasil. No País, os registros começaram a ser feitos em maio de 2015, mas possivelmente as primeiras infecções sejam de antes disso. E os casos de microcefalia no Brasil não foram reportados imediatamente, mas pelo menos seis meses depois. Na Colômbia acredita-se que a epidemia começou somente em outubro. É provável que o pico de infecção esteja acontecendo agora. Então pode aparecer mais para frente. Acredita-se também que é provável que a microcefalia tenha a ver com o período de gestação em que acontece a infecção por zika. A suspeita é de que o risco maior seja no primeiro trimestre de gestação. Então talvez parte das mulheres colombianas tenha sido infectada depois do primeiro trimestre e já estivesse com a gestação avançada quando pegou zika. 

Na semana passada, foi relatado o caso de uma europeia que teve zika e só viu no ultrassom da 29ª semana de gestação traços de que o bebê tinha algum problema. Só na 32ª semana se constatou a microcefalia. Com base nisso, pode ser que seja cedo para detectar o problema nas grávidas da Colômbia?

Exatamente. Temos de ser cautelosos porque ainda não temos informações suficientes na Colômbia e temos de esperar porque é provável que só saberemos com certeza quando essas mulheres tiverem os seus bebês. É importante fazer um monitoramento de perto dessas mulheres para saber se está acontecendo algo. 

Isso já está sendo feito pelo governo colombiano?

O governo tem um programa de monitoramento de zika e está em contato com o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos) para fazer isso (especialistas do CDC chegaram ao país na semana passada). Nosso grupo está fazendo um estudo na cidade de Sincelejo, onde até agora temos cerca de 50 mulheres grávidas infectadas com zika que estão sendo monitoradas mensalmente com ultrassom. Há outros estudos sendo feitos também com mulheres nessa situação.

E quais o senhor acredita que são as outras possibilidades para não haver microcefalia lá?

Também pode haver fatores ambientais do Brasil ou outras infecções que tenham algo a ver com os casos de microcefalia. É importante investigar esses outros fatores.

Como é possível checar isso?

Seria muito valioso e importante fazer um estudo comparativo de monitoramento de grupos de mulheres grávidas infectadas pelo zika no Brasil e na Colômbia para ver como elas se desenvolvem e se pode haver um fator único que resulte na microcefalia. São estudos que precisam ser propostos para ver se conseguimos levantar fundos para realizá-los.

O senhor acredita que existe alguma possibilidade de esse ser um problema somente do Brasil?

Simplesmente não temos como saber isso agora. É uma infecção muito recente e demanda muitos mais estudos para entender melhor o problema. Mas temos de considerar todas as possibilidades.

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