Sebastião Moreira/Estadão
Sebastião Moreira/Estadão

Um em cada três casos de câncer atinge pessoas com até 40 anos

Estudo realizado no A. C. Camargo envolveu 17.871 pacientes durante 12 anos; para médicos, alta do câncer entre jovens pode ser explicado pelo avanço do diagnóstico e maior exposição a fatores de risco

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Sem nenhum histórico de câncer na família e com os exames de rotina geralmente normais, a radialista Ana Paula Suzuki tomou um susto ao receber um diagnóstico de suspeita de um tumor de mama aos 38 anos. Os próprios médicos duvidavam que o nódulo era maligno, considerando o tamanho do caroço e a pouca idade de Ana.

Por insistência da radialista, exames mais aprofundados foram feitos e o diagnóstico confirmou o receio dela. O nódulo era, de fato, um câncer de mama, de um tipo agressivo, que exigiu cirurgia, quimioterapia e radioterapia.

Embora o envelhecimento seja um dos principais fatores de risco para o aparecimento do câncer, a ocorrência da doença entre adultos jovens não é tão incomum e tem aumentado nos últimos anos, de acordo com especialistas. Dados inéditos de um levantamento do A. C. Camargo Cancer Center, centro de referência, mostram que 30% de todos os tumores tratados na instituição entre 2000 e 2012 ocorreram em pacientes com até 40 anos. Foram 17.871 pessoas com o diagnóstico da doença no hospital no período, dos quais 4.332 tinham entre 19 e 40 anos e outros 1.149 estava na faixa até os 18 anos.

Para os médicos, duas razões explicam o crescimento de câncer em jovens: o aumento do diagnóstico precoce e uma maior exposição a fatores de risco, como obesidade, sol, tabagismo e infecções por alguns tipos de vírus.

“O câncer ainda é uma doença de predomínio em pessoas mais velhas, mas hoje em dia temos mais exposição a agentes carcinógenos do que antigamente”, diz Ademar Lopes, cirurgião oncologista e vice-presidente do A. C. Camargo.

Para Riad Younes, diretor do Centro de Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, alguns desses fatores começam a estar presentes mais cedo na vida das pessoas. “Décadas atrás não tínhamos esse nível de poluição nas cidades. Também não tínhamos tanta obesidade na adolescência. Quanto mais cedo a pessoa entra em contato com esses agentes, mais cedo ela poderá desenvolver um câncer”, explica Younes.

Susto. Para Ana Paula, receber o diagnóstico da doença foi um choque para ela e a família. “É como se fosse uma bomba, fiquei bem chateada, saí do médico e só chorava. O tratamento também foi uma fase difícil, pelas dores físicas e psicológicas, mas sempre fui uma pessoa muito otimista, então não me entregava”, conta ela. Hoje com 42 anos, ela ainda faz acompanhamento médico, mas não há resquício do tumor desde 2013.

Segundo os dados do A. C. Camargo, o câncer de mama foi o segundo tipo mais comum entre mulheres na faixa dos 19 aos 40 anos, só atrás do de tireoide. O terceiro mais prevalente foi o de colo do útero. Entre as mulheres de mais de 40 anos, o de mama é o campeão de casos.

Já entre os homens com idade entre 19 e 40 anos, os tipos mais frequentes no hospital foram o de pele tipo melanoma, de tireoide e de testículo, este último muito mais comum entre jovens do que entre pacientes mais velhos.

O empresário Guilherme Salgueiro, de 33 anos, foi uma das vítimas desse tipo de tumor. “Senti uma dor forte no testículo e decidi ir ao médico. Como descobri cedo, bastou a retirada do testículo onde estava o tumor e fiquei curado. É colocada uma prótese no local e não há nenhuma sequela. Tenho uma vida normal”, conta.

Até os 18, tumor nos olhos e leucemia são os mais comuns

Se os tipos de tumores mais frequentes mudam entre adultos jovens e pessoas mais velhas, eles são ainda mais diversos quando analisadas as estatísticas dos pacientes com até 18 anos. De acordo com os dados do levantamento do A. C. Camargo Cancer Center, o órgão mais afetado pelo câncer infantojuvenil são os olhos, com o retinoblastoma como câncer mais prevalente. Dos 1.149 pacientes com até 18 anos tratados no hospital entre 2000 e 2012, 205 tiveram tumor nos olhos, o equivalente a 18% dos casos.

O segundo tipo de câncer mais frequente nos pacientes dessa faixa etária foi a leucemia, seguida pelos tumores ósseos.

Como o A.C. Camargo é hospital de referência para tratamento oncológico, recebendo casos de alta complexidade, alguns dados podem mudar quando analisadas as estatísticas de todo o País. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), as leucemias são o tipo de câncer infantojuvenil mais frequente em todo o País, seguidas pelos linfomas e pelos tumores do sistema nervoso central.

O câncer é a principal causa de morte por doença em crianças e adolescentes no Brasil, de acordo com o Inca. Em 2014, ano dos dados mais recentes compilados, 2.724 mortes por câncer infantojuvenil foram registradas no País.

Seis dicas para ficar alerta e cuidar da saúde

1. Tabagismo - A principal dica para diminuir o risco de câncer é largar o cigarro, relacionado a dezenas de tipos da doença.

2. Peso - A obesidade também é considerada fator de risco para tumores de mama, intestino, esôfago e rim. Manter o peso sob controle e evitar gordura animal em excesso são medidas importantes de prevenção.

3. Sol - O câncer de pele é o mais comum no País e pode levar à morte, principalmente o melanoma, o tipo mais agressivo. Use sempre filtro solar com fator de proteção 30 e evite o sol entre 10 e 16 horas.

4. Prevenção - Alguns tipos de câncer são fáceis de prevenir, como o de colo de útero. A vacina contra o HPV, vírus causador do tumor, está disponível gratuitamente na rede pública para as meninas de 9 a 13 anos.

5. Rastreamento - Os exames de rastreamento de cânceres comuns na população, como mama e próstata, são indicados para pessoas mais velhas. Já os jovens devem ficar atentos a sintomas diferentes e histórico familiar.

6. Alerta - “Não adianta fazer exames desnecessários para a faixa etária. A recomendação é procurar um médico ao notar qualquer sintoma”, diz Fernando Maluf, oncologista clínico e fundador do Instituto Vencer o Câncer.

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