Um povo milenar, mas sem reconhecimento

Cientistas mapeiam ancestralidade de povos uros dos Andes, no Peru e na Bolívia; material genético foi analisado na UFMG

Celso Filho, Especial para o Estado

19 Dezembro 2013 | 15h59

SÃO PAULO - Antes de os espanhóis ou os incas construírem um império na América do Sul, um povo já havia desbravado a região dos Andes e firmado ali uma sociedade que existe há mais de 3 mil anos: os uros. A história deles ainda é pouco conhecida e documentada - até suas origens ainda são um mistério para arqueólogos. No entanto, um grupo de geneticistas e antropólogos decidiu dar o primeiro passo para desvendar a história da etnia.

Membros do Projeto Genográfico - que pretende mapear o genoma de diferentes grupos étnicos ao redor do mundo - iniciaram, em 2007, a coleta do DNA de cerca de 2,4 mil uros na Bolívia e no Peru. O material foi analisado no Centro de Pesquisa da América Latina, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e o resultado aponta que esta etnia não possui descendência comum com nenhum outro povo da região.

 

 

Apesar da miscigenação com outros povos andinos através dos séculos, há traços genéticos que são únicos entre as pessoas que habitam aquela região. Segundo o coordenador do Projeto Genográfico na América Latina, o biólogo Fabrício Rodrigues Santos, da UFMG, isto indica que esta população pode ser da mesma linhagem dos antigos urus, as primeiras comunidades a povoarem o Altiplano Andino.

Os uros vivem às margens de lagos e rios do Peru e da Bolívia, principalmente no Titicaca. Na Bolívia, eles possuem reconhecimento do governo e são incluídos dentro da legislação para as minorias indígenas. No entanto, o grupo étnico não recebe a mesma proteção no Peru. Os uros do Titicaca peruano ainda lutam pela demarcação da terra onde vivem. Segundo o antropólogo Michael Kent, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que colaborou com o Projeto Genográfico, a população daquela região tem se mobilizado desde 2001 para conquistar o controle do seu território, mas ainda enfrenta preconceitos que dificultam a promoção dos seus direitos.

Um destes preconceitos é o reconhecimento de sua linhagem distinta de outros povos indígenas, como os Aimarás e Quéchuas. Como o dialeto original dos uros não é mais falado na região, o povo peruano não os reconhece como legítimos descendentes dos antigos urus. Para Kent, o resultado da pesquisa fortalece a luta deste povo na busca por seus direitos e pode mudar a realidade desta população. "Os dados genéticos conseguiram convencer uma opinião pública que não era receptível a nenhum argumento social ou cultural quanto à autenticidade dos uros, mesmo eles tendo uma cultura única", explica.

Os uros vivem em ilhas artificiais flutuantes, feitas de juncos extraídos das margens de lagos e rios. Eles possuem uma tradição milenar, ligada à pesca. No entanto, atualmente, dependem majoritariamente do turismo. É o caso de Cristina Suaña Coila, de 47 anos. Moradora de uma aldeia de uros, próxima à cidade de Puno, no lado peruano do Titicaca, ela decidiu transformar sua ilha em uma pousada há dois anos. A ideia surgiu depois de hospedar um casal de holandeses que visitavam a região. Atualmente, ela chega a receber 400 pessoas por ano e o negócio é o principal sustento da família de três filhos.

Cristina é também uma das líderes comunitárias de sua aldeia e tem acompanhado com otimismo o trabalho dos cientistas na busca pelas origens dos uros. "Eu tenho muita esperança de que algum dia eles possam se interessar em escrever a história do nosso povo e assim conquistaremos o apoio do poder público com uma representação indígena própria no governo", afirma.

Origem desconhecida. Apesar dos recentes resultados, a formação das primeiras comunidades uros no Altiplano dos Andes ainda é um mistério para os cientistas. Como não há registro escrito ou evidências claras das antigas ocupações dos lagos e rios andinos, os antropólogos trabalham com hipóteses de um fluxo migratório de diferentes regiões da América do Sul.

A primeira hipótese é de que eles seriam descendentes de povos amazônicos. Outra suposição seria que eles teriam surgido de uma migração dos mochicas que habitam o litoral norte do Peru, já que esta população possui hábitos parecidos com os uros. No entanto, os pesquisadores do Projeto Genográfico ainda não conseguiram encontrar correlações genéticas suficientes entre estas tribos e os indígenas do Titicaca.

Para Santos, a hipótese mais plausível é que eles tenham surgido dos primeiros povos nômades que conseguiram chegar ao Altiplano e isto explicaria a falta de relações genéticas com outras etnias da região. "Eles são pescadores e colhedores de frutos. Estas atividades são características de uma ocupação antiga, anteriores ao estabelecimento de uma comunidade mais complexa", explica. Ou seja, os uros ainda preservariam hábitos que antecedem o desenvolvimento de todos os grupos que ocuparam a América Latina.

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