Joyce Hesselberth/The New York Times
Joyce Hesselberth/The New York Times

Uma opção mais simples para a perda auditiva moderada

Muitas pessoas podem pensar em uma alternativa relativamente barata: produtos de amplificação sonora pessoal, que oferecem vantagens - além de perigos

Paula Span, The New York Times

03 Agosto 2016 | 08h00

Cerca de um zilhão de pessoas mais velhas sofrem do mesmo problema que eu.

Primeiro: notamos a perda auditiva relacionada à idade. Em junho, um relatório da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina sobre saúde auditiva determinou a existência do problema em mais de 45% das pessoas entre 70 e 74 anos, número que chega a mais de 80% entre aquelas com mais de 85.

Então: fazemos pouco ou quase nada em relação a isso. Menos de 20% dos deficientes auditivos usam aparelhos.

Já escrevi antes sobre as razões: preços altos (US$ 2.500 ou mais por um modelo decente; a maioria das pessoas precisa de dois); a falta de reembolso pelo Medicare, o sistema público de saúde dos Estados Unidos, uma vez que a lei que o criou em 1965 proíbe esse tipo de pagamento; as dificuldades de lidar com os aparelhos; o estigma social.

Tanto a Academia Nacional quanto o influente Conselho de Assessores de Ciência e Tecnologia do Presidente propuseram medidas pragmáticas para que as tecnologias auditivas se tornem mais acessíveis e baratas.

Mas até que haja progresso nessas áreas, muitas pessoas com perda auditiva de leve a moderada podem pensar em uma alternativa relativamente barata: produtos de amplificação sonora pessoal (ou PSAPs, na sigla em inglês). Eles oferecem algumas vantagens - além de alguns perigos.

Ao contrário de um aparelho auditivo, você não precisa ser atendido por um audiologista para obter um PSAP. Eles são encontrados nas páginas de revistas, à venda em farmácias e podem até ser comprados pela internet.

Porém, não são submetidos a qualquer controle do FDA, o órgão que regulamenta alimentos e medicamentos nos Estados Unidos. Isso significa que "não são controlados de acordo com padrões técnicos de fabricação, desempenho e embalagem que se aplicam aos aparelhos regulamentados", afirmou o relatório da Academia Nacional. Por lei, os fabricantes não podem divulgar os PSAPs como aparelhos que ajudam com a perda auditiva.

A falta de regulamentação pode gerar inovações mais velozes - já que a aprovação do FDA demanda tempo -, mas também pode criar caos para o consumidor.

Novos aparelhos digitais - alguns PSAPs utilizam tecnologia Bluetooth para customização e outros são até capazes de realizar testes de audição - estão surgindo em todos os cantos. Você pode gastar de US$ 70 a US$ 700 em um par, embora seja incapaz de diferenciar um produto bom de um inútil.

"O mercado atual é uma bagunça", afirmou o Dr. Frank Lin, otorrinolaringologista da Faculdade de Medicina Johns Hopkins e membro do comitê da Academia Nacional. "Algumas empresas que fabricam PSAPs são boas, fundadas por antigos engenheiros e executivos de empresas de aparelhos auditivos regulamentados, mas os que você encontra no Wal-Mart por US$40 são terríveis."

Quais os PSAPs que são bons de verdade? O Dr. Nicholas Reed, audiologista da Johns Hopkins, realizou testes eletroacústicos em diversos aparelhos vendidos pela internet, medindo o volume, a frequência e a clareza do som, os três fatores mais importantes para ajudar na audição.

Além disso, também testou os aparelhos em usuários com perda auditiva de leve a moderada. (Esse tipo de aparelho não ajuda quem sofre de perda grave de audição.)

Depois de colocar essas pessoas em cabines com algum ruído de fundo, ele utilizou vários PSAPs para comparar seu desempenho em relação a aparelhos auditivos de US$2.500 e a audição sem a ajuda de aparelhos.

Reed destaca que testou apenas 29 participantes até o momento e que os resultados no mundo real podem variar. Ainda assim, ele e os colegas ficaram impressionados com três PSAPs.

O Soundhawk, que funciona com um smartphone, se saiu praticamente tão bem quanto um aparelho auditivo, embora seja vendido por US$399. O CS50+, feito pela Soundworld Solutions, e o Bean T-Coil, da Etymotic, tiveram desempenho igualmente bom e são vendidos por US$350.

Os pesquisadores também testaram o MSA 30X, vendido em farmácias por US$ 30, e revelaram que ele na verdade aumenta a distorção. "É um tremendo desperdício de dinheiro", afirmou Reed.

O grupo de pesquisa de Lin está realizando dois estudos piloto que colocam os PSAPs em pacientes. "Estamos vendo resultados muito positivos", disse ele.

Reed irá apresentar os resultados no Congresso Internacional de Pesquisa em Aparelhos Auditivos, no mês que vem.

Por fim, tanto o Conselho Presidencial, quanto o comitê da Academia Nacional recomendam que as agências regulatórias criem uma nova categoria para esses aparelhos que podem ser comprados sem receita médica, às vezes chamados de "audíveis". Eles pedem para que a FDA estabeleça as especificações que garantam a segurança e eficácia desses produtos, exigindo que os fabricantes atendam a determinados padrões de fabricação.

Assim, os consumidores poderão comprá-los com mais segurança, evitando o sistema "casado", apoiado por leis estaduais e federais, que tornam os aparelhos acessíveis apenas para quem vai ao médico.

(A exceção: já existem alguns aparelhos auditivos que podem ser comprados pela internet, mas às vezes a única diferença entre eles e os PSAPs é a embalagem.)

Grupos do setor se posicionaram contra mudanças na lei atual. Contudo, a proposta é similar à forma como muitos pacientes atualmente compram óculos: primeiro é preciso conseguir uma receita com um optometrista ou oftalmologista, e só depois é possível comparar preços e estilos em lojas e sites.

Os aparelhos auditivos exigem mais adaptação e instrução que os óculos. E embora esses possam possam corrigir a visão, nenhum aparelho devolve completamente a audição.

Porém, apesar de os aparelhos auditivos aprovados pelo FDA e ajustados por audiologistas continuem servindo como padrão para o tratamento da perda auditiva, os PSAPs também têm o seu espaço. "Deixe que o cliente encontre o aparelho que preferir pela internet e depois o audiologista pode cobrar por hora para ajustá-lo", afirmou Reed.

"Atualmente muita gente está fazendo isso por conta própria, criando sistemas que utilizam aparelhos eletrônicos e equipamentos de áudio", completou.

Richard Einhorn, compositor de Manhattan, perdeu repentinamente boa parte da audição em decorrência de uma infecção viral, em 2010. Ele possui aparelhos auditivos de alta qualidade, mas assim como muitos usuários ainda tem dificuldades em ambientes barulhentos como restaurantes.

Sua solução: remover o aparelho e usar o iPhone. "O iPhone conta com especificações de áudio fantásticas, do mesmo nível de aparelhos profissionais", afirmou Einhorn, de 63 anos, membro da Associação Americana de Pacientes com Perda Auditiva.

Utiliza um aplicativo de audição certificado pelo FDA, o Jacoti ListenApp, um microfone direcional (o Shure Motiv MV88) e fones de ouvido de boa qualidade. (Vale lembrar que Einhorn é um dos avaliadores da Jacoti.)

"Com esse equipamento, dá para ouvir muito bem em situações em que os aparelhos não funcionam direito", disse ele.

Espera-se que o Medicare venha a reconsiderar sua política sobre a cobertura de aparelhos auditivos, algo que o relatório da Academia Nacional pede veementemente.

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