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Uma pílula para dois sexos?

Para os pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nova substância, em teoria, poderia fazer o bloqueio de energia

Jairo Bouer

Já imaginou uma pílula anticoncepcional sem hormônios, que pudesse ser tomada tanto por homens como por mulheres? Cientistas americanos estão investindo em uma linha de pesquisa inédita, que busca uma molécula capaz de bloquear o fornecimento de “combustível” para os espermatozoides, impedindo assim que eles tenham força para alcançar o óvulo.

A primeira etapa foi a identificação de uma proteína (ABHD2), que está envolvida com o fornecimento de energia para o espermatozoide se deslocar e penetrar no óvulo. O próximo passo é desenvolver uma droga que “trave” esse mecanismo, evitando a fertilização.

Mais de 50 anos depois da primeira pílula anticoncepcional feminina, ainda não há no mercado um produto capaz do mesmo papel nos homens

Mais de 50 anos depois da primeira pílula anticoncepcional feminina, ainda não há no mercado um produto capaz do mesmo papel nos homens

Para os pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley, essa nova substância, em teoria, poderia fazer o bloqueio de energia tanto no corpo masculino como no feminino, dividindo a responsabilidade da prevenção da gravidez de forma mais justa entre os dois sexos. O trabalho foi publicado na revista Science da última semana e noticiado pelo jornal Daily Mail.

Mais de 50 anos depois da primeira pílula anticoncepcional feminina, ainda não há no mercado um produto capaz do mesmo papel nos homens. Os métodos hoje disponíveis têm vias de administração complexas (injetáveis), podem interferir na libido (desejo) e, pior, comprometer a fertilidade de forma definitiva. Apesar dos avanços dos últimos anos, o homem hoje (além de usar a camisinha) tem um papel reduzido na contracepção.

Especialistas avaliam que a maior divisão de responsabilidade para evitar a gravidez indesejada poderia melhorar o relacionamento do casal.

De forma adicional, os pesquisadores sugerem que, além de criar uma molécula que bloqueia a proteína fornecedora de energia e impede a fertilização, também poderia ser desenvolvida uma outra droga que atuasse no sentido contrário, aumentando a ação da ABHD2 e, assim, potencializando a chance de filhos para casais com problemas de fertilidade. Agora é dar tempo para ver se essa linha de investigação consegue mesmo gerar bons resultados.

Contracepção X camisinha. E por falar em prevenção de gravidez, um novo estudo com 2.300 garotas adolescentes de 16 a 18 anos, feito pelo Centro de Controle de Doenças (CDC) dos EUA, mostrou que as jovens que usavam métodos de longa duração como DIU (dispositivo intrauterino) e implantes subcutâneos estavam 60% menos propensas a usar camisinha do que as que tomavam a pílula convencional.

Essas garotas também estavam mais predispostas a ter mais parceiros sexuais. Os resultados foram publicados no jornal médico Jama Pediatrics. Menos de 2% das garotas avaliadas usavam implante ou DIU, enquanto 22% tomavam pílulas. As demais usavam outros métodos (camisinha, injetáveis, coito interrompido) ou não se protegiam. 

O uso de contracepção de longa duração pelas adolescentes é uma estratégia defendida por muitos especialistas como uma forma de garantir maior adesão e eficácia dos métodos, já que muitas garotas esquecem as pílulas e têm dificuldade em se comprometer com a prevenção de uma gravidez no longo prazo. 

Esses métodos de longa duração podem ter um papel ainda mais importante em meninas mais vulneráveis, como as que têm famílias pouco estruturadas, vivem na rua ou usam drogas como o crack.

O trabalho do CDC mostra que além de fornecer os métodos mais duradouros, os profissionais e os serviços de saúde têm de conscientizar essas meninas sobre a importância de também usar camisinha e de se proteger contra as doenças transmitidas pelo sexo. Um grande desafio, que fica ainda maior justamente nas populações com maior vulnerabilidade social, familiar ou emocional.

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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