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USP estuda se alguns bebês têm gene protetor contra microcefalia

Três casos de gêmeos em que apenas um dos fetos desenvolveu a má-formação chamou a atenção de pesquisadores da universidade

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Fabiana Cambricoli,
O Estado de S. Paulo

03 Fevereiro 2016 | 03h00

SÃO PAULO - A partir do relato recente de gêmeos em que apenas um dos bebês nasceu com microcefalia, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) vão investigar se alguns fetos podem ter genes que os protegem ou facilitam a má-formação. De acordo com Mayana Zatz, diretora do Centro de Pesquisas do Genoma Humano e Células-tronco da USP e professora de genética do Instituto de Biociências da universidade, o fato de uma mulher com gestação de gêmeos ser contaminada pelo zika vírus e apenas um dos bebês desenvolver a má-formação pode indicar que alguns tenham predisposição genética ou proteção para a microcefalia.

“O ideal seria monitorarmos o que acontece com todas as grávidas infectadas pelo zika tanto nos casos em que o bebê nasce com a microcefalia quanto nos que não nascem. Mas, como na maioria dos casos do vírus a pessoa não tem sintomas nem sempre vamos achar as mães dos bebês sem a má-formação. Por isso, pensamos nos casos dos gêmeos, porque já temos a comparação entre os dois bebês da mesma mãe. Esses casos podem nos dar respostas preciosas”, diz a pesquisadora.

Três casos. Até agora, o grupo de Zatz já recebeu relatos de três casos de gêmeos discordantes – em que apenas um tem microcefalia. Um dos relatos, da dona de casa Jaqueline Jéssica de Oliveira, de Santos, foi revelado pelo Estado em janeiro. Os outros dois foram descobertos por pesquisadores de Pernambuco e da Bahia.

Os cientistas da USP já fizeram parceria com as universidades federais desses dois Estados e da Paraíba para buscar novos casos e analisar o genoma das mães e dos bebês já encontrados. “Acreditamos que existam muitos outros registros do tipo e estamos atrás deles. Considerando que a prevalência de gestação de gêmeos é de uma em cada cem e se já temos 4 mil casos suspeitos de microcefalia pelo zika vírus, teríamos cerca de 40 nascimentos de gêmeos no meio desses casos”, afirma a pesquisadora. Ela pede que médicos e cientistas de outros Estados que tenham conhecimento de casos de gêmeos discordantes na microcefalia informem o grupo de pesquisa da USP pelo e-mail mayazatz@usp.br.

Com base na identificação dos casos, os geneticistas vão comparar o genoma dos dois gêmeos e dos pais para verificar se há algum gene ligado à microcefalia diferente em uma das crianças ou ainda se o zika vírus tem o poder de “silenciar” um gene que poderia evitar a má-formação. Vão ainda analisar se pode ter sido um fator hereditário o causador da microcefalia – e não a infecção por zika.

Rede Zika. Com essa pesquisa em gêmeos, o grupo de Zatz passou a integrar a força-tarefa de pesquisadores paulistas contra o zika vírus. Batizado de Rede Zika, o grupo coordenado pelo virologista Paolo Zanotto, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, é composto por 25 laboratórios e cerca de 300 pesquisadores nas mais diferentes frentes: virologia, infectologia, entomologia, neonatologia, entre outras.

Mayana Zatz afirma que um dos grandes desafios é o custeio da pesquisa. “Estamos atrás de financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e em contato com um grupo da Inglaterra que se interessou pelo projeto. De qualquer forma, já vamos iniciar a realização de exames nas mães, nos pais e nos bebês, até porque esse material pode ficar armazenado até o início da análise”, explica.

Além do estudo dos casos dos gêmeos, a pesquisadora afirma que pretende avaliar o genoma de cem crianças nascidas com microcefalia e outras cem sem a má-formação em áreas de grande disseminação do zika. O prazo para os primeiros resultados ainda não está definido. “Vai depender muito do que encontrarmos na análise dos genomas.”

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