Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Vacina de HPV só tem adesão de 45% do público-alvo

Imunização contra o câncer de colo de útero enfrenta resistência e a menor cobertura ocorre em regiões com maior mortalidade

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

23 Julho 2016 | 17h00

SÃO PAULO - Quase três anos após incluir a vacina contra o HPV no SUS, o Ministério da Saúde conseguiu imunizar integralmente nesse período só 45% das meninas para as quais o item está disponível gratuitamente. Capaz de prevenir o câncer de colo de útero ao impedir a infecção pelo vírus, a vacina tem sobrado nos postos de saúde.

Levantamento feito pelo ministério a pedido do Estado mostra que de 2014, quando a campanha foi iniciada, até 2016, cerca de 5,3 milhões de meninas de 9 a 13 anos tomaram as duas doses da vacina, o que garante a proteção. O número, no entanto, está bem abaixo da população-alvo, de cerca de 11,9 milhões.

O balanço federal mostra também que a cobertura vacinal é bastante desigual entre os Estados. Enquanto no Distrito Federal 72% das meninas tomaram as duas doses da vacina, no Pará, a adesão foi de apenas 28% da população-alvo.

As menores coberturas estão justamente em regiões onde a mortalidade por câncer de colo de útero é maior no País. Dos cinco Estados brasileiros com as mais baixas adesões, quatro são do Norte e Nordeste, onde os índices de óbitos por 100 mil mulheres foram de 12,24 e 6,3 em 2013, os maiores entre as cinco regiões brasileiras. Além do Pará, figuram na lista de menores coberturas Bahia, Piauí, Rio Grande do Norte e Paraná.

Para o Ministério da Saúde e especialistas, a baixa adesão à campanha está ligada à desinformação de alguns pais e à circulação de informações sobre possíveis reações adversas da vacina. O ministério diz ainda que o fato de muitos municípios não oferecerem a imunização em escolas dificulta a adesão.

“Existe muita veiculação de informações equivocadas sobre possíveis eventos adversos nas redes sociais e meios de comunicação. Em parte, isso se deve ao fato de que, quando a vacina foi introduzida no País, foram notificados 23 casos de reação psicogênica. As investigações evidenciaram que não houve nenhuma manifestação clínica associada à vacinação”, diz Eduardo Hage, diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis do ministério.

Medo. O receio de o imunizante causar efeitos colaterais foi uma das razões que levaram a advogada Ana Lúcia Keuneche, de 42 anos, a optar por não vacinar a filha Sofia, de 10 anos. “Li a bula da vacina e estão descritos vários possíveis efeitos adversos. Acho que os pais deveriam ter acesso à informação antes de fazer uma escolha que pode trazer riscos”, diz.

O publicitário Rodrigo José de Almeida Vieira Dias, de 44 anos, tem a mesma opinião e não vacinou a filha de 9 anos. “Acho que a população está sendo cobaia dessa vacina. Como existiram relatos de problemas em outros países, como o Japão, acho que essa vacina não deveria ser dada até mais estudos serem feitos.”

De acordo com o ministério, os dez anos de uso da vacina em programas de imunização de outros países somam evidências científicas significativas de segurança, eficácia e eficiência na prevenção do câncer de colo de útero. A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem o mesmo posicionamento.

“Não existe medicamento isento de risco. A possibilidade de eventos adversos existe, mas é muito pequena. O benefício supera qualquer risco da vacina. Temos a sorte de contar com uma vacina que previne câncer. É muito triste ela não ser utilizada”, diz o oncologista Claudio Ferrari, secretário de Comunicação da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica.

Mortes. Tumor que pode ser evitado pela vacina contra o HPV ou por meio da realização de exame papanicolau, o câncer de colo de útero matou 5.430 brasileiras em 2013, segundo dados do Ministério da Saúde. O vírus está ligado ainda à ocorrência de outros tipos de tumor, como os de orofaringe, vagina, ânus e pênis.

A vacina confere proteção contra quatro subtipos do vírus – 6, 11, 16 e 18. Os dois primeiros estão associados ao aparecimento de verrugas genitais e os dois últimos são os causadores da maioria dos tumores de colo uterino. A vacina é dada em duas doses, com intervalo de seis meses entre a primeira e a segunda. Além das meninas de 9 a 13 anos, podem tomar a vacina na rede pública garotas e mulheres soropositivas de até 26 anos.

TRÊS PERGUNTAS PARA...

Eduardo Hage, diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde

1. Como o ministério avalia a cobertura vacinal alcançada até agora?

Este porcentual, ainda não satisfatório, pode estar associado a fatores como a baixa percepção do risco sobre a doença e conhecimento insuficiente sobre eficácia e segurança.

2. Por que as taxas de cobertura são tão diferentes entre os Estados?

Embora o ministério oriente a integração entre saúde e educação, somente parte dos municípios usa a escola para a vacinação e isso pode contribuir para as diferenças.

3. O que o ministério pretende fazer para aumentar a adesão à campanha?

O trabalho tem sido na comunicação. Elaboramos materiais técnicos e educativos sobre HPV voltados para profissionais da saúde, professores, adolescentes e a comunidade.

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