REUTERS/Jim Gathany/CDC/via Reuters
REUTERS/Jim Gathany/CDC/via Reuters

Venezuela registra o maior aumento de casos de malária no mundo e ameaça Brasil 

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 400 mil casos foram ser registrados no território venezuelano, quase dez vezes mais que no início da década

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2018 | 07h34

GENEBRA - Diante do colapso do sistema de saúde e da falta de campanhas de prevenção, a Venezuela registra o maior aumento porcentual de casos de malária no mundo. Dados publicados nesta terça-feira, 24, pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, em 2017, mais de 400 mil casos foram ser registrados no país, quase dez vezes mais que no início da década. Para a entidade, essa realidade já é uma ameaça ao Brasil, diante do fluxo de refugiados e imigrantes que poderia provocar uma nova onda de transmissão. 

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A tendência de alta na malária é uma realidade em diversas partes do mundo, mas a situação venezuelana chama a atenção. “O aumento é real e muito preocupante”, disse Pedro Alonso, diretor da OMS para o Combate à Malária. 

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Em sua avaliação, houve uma redução importante nas campanhas anti-malária, o que permitiu o salto no número de casos. “Nos anos 1950, quando a OMS lançou suas primeiras campanhas, a Venezuela foi o primeiro país a conseguir que regiões inteiras fossem declaradas livres da doença”, disse. “Hoje, porém, é o local com maior aumento em todo o mundo”, lamentou, sem dar detalhes sobre o restante dos países. 

Em 2010, o país havia registrado 45 mil casos de malária. Em 2016, a taxa já era de 240 mil. Contudo, nem a OMS acreditou nos dados oficiais fornecidos por Caracas e estima que existiam 300 mil casos. Agora, para 2017, os dados preliminares apontam para 406 mil. 

Os números oficiais de mortes também não são considerados confiáveis. A Venezuela informou à OMS que registrou apenas um caso em 2016. Mas a entidade estima que as mortes chegam a 280.  

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Para a agência de Saúde da ONU, o risco é de que esses casos voltem a afetar zonas brasileiras que tinham conseguido se livrar ou reduzir de forma dramática a malária. “Estamos vendo, de fato e por causa do movimento de pessoas, casos de venezuelanos com malária no Brasil. Mas também na Colômbia”, disse Alonso. “O risco é de que essas pessoas não sejam diagnosticadas e que possa haver uma nova onda de transmissão no Brasil”, alertou.

Para ele, a nova realidade exigirá que os governos vizinhos à Venezuela trabalhem para conter a onda e de forma gratuita. “Não há nada mais perigoso que um paciente sem tratamento”, disse. 

Enquanto os casos venezuelanos explodem, o Brasil registrou nos últimos seis anos uma queda. Eles passaram de 334 mil em 2010 para 129 mil em 2016. Alonso, porém, diz ainda não ter os números finais de 2017 para o Brasil.  

No restante do mundo, a OMS também aponta para o fim do progresso no combate à malária. “Precisamos de US$ 5,5 bilhões por ano para erradicar a doença. Mas temos apenas metade disso”, lamentou. “Os investimentos contra malária ficaram estagnados nos últimos cinco anos, o que significa que não há mais progresso e há aumento de casos”, completou.

Em números absolutos, todos os países com maiores índices de casos - como Uganda, Moçambique e outros países africanos - registraram uma alta na malária em 2017. 

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