Adena Steves/Reuters
Adena Steves/Reuters

Você toma remédio contra azia? Melhor mudar a dieta e fazer exercícios

Medicação tem sempre efeitos colaterais, inclusive alguns piores do que a doença que deveriam tratar

Jane E. Brody, The New York Times

05 Abril 2017 | 07h00

Muitos preferem tomar remédio a mudar os hábitos para controlar um mal físico persistente. O problema é que a medicação tem sempre efeitos colaterais, inclusive alguns piores do que a doença que deveriam tratar. Remédios que, a princípio, são considerados seguros, podem esconder perigos, tanto incômodos como severos, que se tornam aparentes somente depois que milhões de pessoas os consomem durante um tempo razoavelmente longo.

É o caso de uma classe bastante popular de drogas, os chamados inibidores de bomba de prótons, ou PPIs, atualmente consumidos por mais de quinze milhões de norte-americanos e outros tantos pelo mundo afora para conter um problema cada vez mais comum: o refluxo gastroesofágico, a que muita gente se refere como azia ou má digestão.

Eles estão ligados a um número enorme de complicações, que variam em gravidade e vão desde deficiências nutricionais, dores nas juntas e infecções, a fraturas, ataques cardíacos e demência. Embora ainda não haja evidências definitivas da maioria dos riscos identificados, ao consumidor castigado pelo refluxo é aconselhável optar por uma saída alternativa, principalmente as mudanças na dieta e no estilo de vida, para minimizar os sintomas e até reparar um dano já causado.

O refluxo é mais que apenas um incômodo; envolve o fluxo retroativo do ácido gástrico sobre os tecidos acima dele. Isso acontece quando o esfíncter inferior do esôfago, um anel muscular entre o esôfago e o estômago, não consegue fechar adequadamente para impedir que o conteúdo desse segundo órgão suba em vez de descer. Às vezes o superior, entre o esôfago e a garganta, também apresenta problemas.

O refluxo é uma doença grave que pode e deve ser tratada para que se evitem sintomas e consequências que podem colocar a vida em risco. Conhecida médica e comercialmente como DRGE, a doença do refluxo gastroesofágico, afeta os tecidos delicados do esôfago que, banhados pelo suco gástrico, corrosivo, podem danificá-los seriamente - e até causar câncer, quase sempre fatal.

Ao contrário do que muitos acreditam, a azia é apenas um dos muitos sintomas da DRGE e o não reconhecimento de outros se ela não estiver entre eles pode resultar em um refluxo com sérios danos. Além da má digestão, a doença pode causar uma tosse seca persistente, dor de garganta, pigarro, rouquidão, arrotos e/ou soluços, inchaço, dificuldade em engolir e uma sensação de bolo na garganta.

Se, quando ciente de sintomas - no caso, considerados inexplicáveis -, seu médico nem mencionar a DRGE, você mesmo pode fazê-lo. Um exame do esôfago pode ser a única maneira de descobrir se a pessoa com azia óbvia tem refluxo, mas não sabe.

O Dr. Jonathan Aviv, otorrinolaringologista afiliado à Faculdade de Medicina Mount Sinai Icahn, em Nova York, tinha trinta e poucos anos quando começou a desenvolver um sintoma assustador que depois descobriu ser causado pelo refluxo: acordava de repente, no meio da noite, com falta de ar e a sensação de estar engasgando. Como nunca tinha reclamado de azia, seu próprio médico duvidou que o refluxo pudesse ser a explicação; entretanto, o tratamento lhe deu alívio e durou um ano, ensinando a Aviv o que fazer para controlar o problema.

E ele acabou escrevendo um livro, "The Acid Watcher Diet", que explica como os diversos sintomas podem piorar, e oferece, em detalhes, um programa de cura e prevenção para ajudar e impedir que muita gente, se não a maioria, evite os remédios mais receitados para tratá-lo.

Uma característica geralmente associada ao refluxo - o sobrepeso, principalmente a obesidade abdominal - explica, em grande parte, por que a doença se tornou tão comum nos países ocidentais. Uma pessoa com índice de massa corporal excessivo tem quase o dobro de chances de ter DRGE que outra, de peso normal. Emagrecer é uma das melhores maneiras de encontrar alívio sem ter que apelar para os remédios.

Parar de fumar, limitar o consumo de bebida alcoólica e evitar refrigerantes são outras medidas preventivas importantes. Segundo Aviv, o cigarro e o álcool podem afrouxar a tensão no esfíncter superior e causar sintomas como rouquidão, gotejamento pós-nasal e falta de ar, irritando a boca, a laringe e a traqueia.

Comer em excesso, deitar antes da conclusão da digestão e praticar exercícios logo depois de se alimentar também podem gerar sintomas. A quem sofre de refluxo geralmente se recomenda cinco ou seis refeições pequenas ao longo do dia em vez de uma ou duas mais substanciosas, além de evitar comer até três horas antes de ir dormir. Como proteção a mais, a cabeceira da cama deve ser elevada pelo menos 15 cm.

Embora certos alimentos bastante comuns - como cebola crua, alho, sucos cítricos, café e chocolate - possam causar refluxo na maioria daqueles que sofrem da doença, Aviv e outros especialistas frisam que cada pessoa é diferente da outra e a tentativa e erro é o método mais eficiente de determinar quais os alimentos e bebidas geram mal-estar. Os especialistas sugerem manter um diário durante uma semana ou duas, registrando tudo o que for consumido e quanto tempo leva para aparecerem os sintomas, o que ajuda a identificar os vilões.

Um alimento não precisa ser obviamente ácido para ser problemático. Os muito gordurosos são difíceis para muita gente porque levam muito tempo para serem digeridos. Aviv observa que muitos alimentos e bebidas processados contêm substâncias ácidas para realçar o sabor e aumentar o prazo de validade. Por isso, a dieta "curadora" de 28 dias que ele sugere consiste quase que praticamente só em opções naturais e não processadas, principalmente as proteínas magras como frango, peixe, clara de ovo e laticínios desnatados, feijões (combinados com grãos integrais) e legumes e frutas não ácidos.

Os alimentos ricos em fibras também ajudam muito, "perdendo só para a eliminação das opções ácidas", ensina Aviv. A fibra estimula a digestão, reduzindo a pressão no esfíncter inferior, além de ajudar na perda e manutenção de peso, entre outros benefícios, como a redução da inflamação. Tente consumir 500 gramas de legumes por dia, metade crua, metade cozida, além de 200 gramas de fruta. Boas sugestões são brócolis, cenoura, verduras de folhas escuras, maçã, frutas vermelhas, banana, abacate e pera, como também amêndoas, nozes, lentilhas, grão-de-bico e feijão lima.

Se nada disso ajudar a controlar o refluxo, talvez o inibidor de bomba de próton seja inevitável - mas, segundo os especialistas, nas menores doses possíveis, no horário mais adequado e durante o período mais curto possível. "Estudos revelam que 80 por cento dos norte-americanos podem estar tomando esse medicamento de forma errada", escreve Aviv. De acordo com suas instruções, eles devem ser engolidos de 30 a 60 minutos antes do café da manhã ou jantar (ou ambos), mas não podem ser usados como "antídoto" ao consumo de alimentos ácidos.

 

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