James Gathany/CDC/AP
James Gathany/CDC/AP

Zika afeta os mais pobres e pode atingir África e Ásia, diz OMS

Organização Mundial de Saúde afirma que é 'improvável que o vírus simplesmente desapareça'

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

05 Maio 2016 | 12h41

GENEBRA - Prestes a completar um ano do surto do zika vírus no Brasil, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que são os mais pobres que mais sofrem com a doença, que a proliferação de casos está ligado à falta de investimentos e que o vírus dá todas as indicações de que não vai parar nas Américas e pode atingir África e Ásia. Para a entidade, é "improvável que o zika simplesmente desapareça".

No dia 7 de maio de 2015, o sistema da OMS recebeu a primeira confirmação de um caso registrado em laboratório no Brasil. Aquele era o resultado de pelo menos três meses da busca por uma explicação para um fenômeno novo que havia aparecido no Nordeste do País. A suspeita inicial era de dengue, mas os casos foram dados como negativos pelos exames. 

Em abril daquele ano, os primeiros testes apontaram para o zika, no entanto, as dúvidas continuaram, já que a doença jamais havia atingido as Américas. Finalmente, no dia 7 de maio, testes laboratoriais confirmaram a presença do zika.

Para os especialistas, o vírus foi trazido "quase com certeza" da Polinésia Francesa, já que os exames apontam para o fato de que o identificado no Brasil é idêntico ao do Pacífico. Uma possibilidade é de que tenha chegado ao País em agosto de 2014, num campeonato mundial de canoagem, no Rio de Janeiro. O evento contou com quatro nações do Pacífico, entre elas a Polinésia Francesa.

No final de 2014, exames retrospectivos apontaram que a doença já estava presente no País. "Uma vez estabelecido no Brasil, a proliferação do zika foi explosiva dentro do País e na América Latina", constatou a OMS. "Em um ano, o vírus estava em praticamente todos os países infestados pelo mosquito do Aedes aegypti." 

Para a OMS, existe agora um "alto risco" de uma reexportação, "com 10 milhões de pessoas deixando atualmente o Brasil para destinos internacionais". Um dos destinos poderá ser a África. 

Segundo a entidade, o comportamento da dengue cada vez mais frequente tem demonstrado que é "improvável que o zika simplesmente desapareça". Em sua avaliação, esse tipo de vírus está "bem equipado para adaptar às pressões ecológicas e explorar oportunidades para disseminar". 

A OMS ainda estima que novos dados vindo das Américas mostram o "potencial" do zika de continuar se espalhando. Estudos no Equador e no Nordeste brasileiro indicaram em abril que a transmissão poderia ocorrer por meio de macacos, o que permitiria que o vírus persistisse. 

No México, pesquisas apontaram para a presença do zika no mosquito Aedes albopictus, uma espécie que continua a se expandir "bem além da Ásia". "Diante da capacidade do mosquito de sobreviver ao inverno de climas temperados, sua habilidade de levar o zika vírus pode expandir para das áreas sob risco de transmissão de forma significativa", alertou a OMS. 

Para a entidade, não restam dúvidas de que "provavelmente o zika está se movendo e esse vírus tem o poder de permanecer". 

Pobreza. A avaliação da OMS sobre o primeiro ano do surto também aponta para a constatação de que o mundo "estava despreparado" para lidar com a doença. "Sem vacinas, médicos podem oferecer às grávidas apenas a recomendação de que não sejam picadas pelo mosquito, que adiem a gravidez ou que não viagem para locais com transmissão".

A falta de diagnósticos também deixou grávidas expostas ao zika e preocupadas sobre as consequências. 

A OMS ainda destaca que "o fato de que a transmissão sexual do zika é mais comum do que se pensava e complica ainda mais a recomendação a casais planejando suas famílias". Em um ano, nove países registraram a transmissão da doença por meio do sexo.

Mas, em todos esses casos, é a pobreza que aprofunda a crise. "Poucos países na zona do surto têm acesso universal para serviços de planejamento familiar", disse a OMS. "Estudos mostram que a América Latina tem a maior proporção de gravidezes indesejadas no mundo, com 56%." 

"No Brasil, muitas mulheres que estão dando à luz bebês com microcefalia são jovens e pobres", disse. "Nos EUA, o custo de cuidar de uma criança com microcefalia está estimado em até US$ 10 milhões. Num país pobre, o peso recai sobre as mães, que tem de abandonar seu trabalho assalariado." 

Segundo a OMS, o peso do zika também recai sobre os pobres por outras razões. Nas cidades tropicais, são os pobres que não têm ar-condicionado, redes nas janelas ou repelentes. "Sem água encanada e saneamento pobre, são forçados a armazenar água, dando condições ideais para a proliferação dos mosquitos", explicou a entidade. 

Mas, na avaliação da OMS, o "maior fracasso" é de política pública. Trata-se da "complacência" de governos que, por anos, consideraram que haviam vencido o mosquito, depois das campanhas de erradicação nos anos 50. "Nos anos 60, a febre amarela acabou, os recursos para o controle de mosquito secaram, programas foram desmantelados e os entomologistas desapareceram", disse.

"A fragilidade dessa estratégia ficou demonstrada pela dramática volta da dengue, chikungunya como ameaça à saúde", insistiu. "O zika parece destinado a fazer essas fragilidades ainda mais explícitas." 

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